quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Private: Paris (James Patterson e Mark Sullivan)

Jack Morgan está de visita a Paris para ver como correm as coisas com a sua empresa. Longe está ele de imaginar que se verá envolvido numa série de situações delicadas. Primeiro, um dos seus principais clientes liga-lhe a pedir que encontre a neta, da qual pouco sabe há bastante tempo, mas que acaba de lhe ligar a dizer que está metida em sarilhos. E depois o que começa por ser um conjunto de misteriosos graffiti ganha um novo significado quando as grandes figuras de França começam a aparecer mortas de uma forma altamente simbólica. Todos os recursos da Private Paris serão necessários para desvendar o mistério, pois a tensão que se vive na cidade é imensa e basta a mais ínfima faísca para pegar fogo a tudo.
Já é característico desta série que o enredo se divida entre vários casos. Mas é provavelmente neste livro que as várias partes se conjugam de forma mais coesa. O caso de Kim Kopchinski pode ter muito pouco a ver com os misteriosos actos do grupo AB-16, mas ambos os casos parecem entrelaçar-se com fluidez no ritmo a que a narrativa avança. Além disso, a situação de Jack enquanto estrangeiro no país torna a sua intervenção em ambos os casos mais delicada, o que faz com que tudo progrida com uma muito maior subtileza.
Claro que, apesar da situação delicada de Kim, grande parte do impacto da história vem do caso AB-16. E é daqui que emerge outro dos grandes pontos fortes deste livro. É que, sem perder de vista o habitual ritmo intenso e de acção constante, os autores traçam um cenário complexo e que levanta várias perguntas relevantes. Os processos de radicalização, a forma como o preconceito pode ser usado em proveito próprio, até mesmo a forma como, a partir de uma série de suspeitas bem urdidas, se pode construir uma teoria completamente oposta à realidade dos factos, tudo isto está bem presente ao longo do enredo e a naturalidade com que tudo se desenrola só realça mais o impacto destas questões.
E depois, claro, há Jack e a forma como, a partir do seu carisma (e das suas discretas, mas perceptíveis vulnerabilidades), se gera uma série de simpatias e de aversões mais ou menos óbvias, que tanto proporcionam momentos de grande intensidade como de um muito agradável humor. Também isto torna a leitura mais cativante, pois vem criar picos de surpresa num livro onde a acção é praticamente incessante, acrescentando ao enredo uma faceta mais leve que, tendo em conta o cenário global, acaba por funcionar particularmente bem.
Trata-se, pois, muito provavelmente de um dos melhores livros desta série, um livro para devorar de uma assentada - e, depois, para ficar ansiosamente à espera da próxima aventura de Jack Morgan e da sua Private. Intenso, viciante e muito equilibrado na conjugação das suas múltiplas facetas. Muito bom, portanto.

Título: Private: Paris
Autores: James Patterson e Mark Sullivan
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Os 22 Mistérios da História (Geòrgia Costa)

Do Triângulo das Bermudas às Pirâmides de Gizé, passando, é claro, pelos avistamentos de discos voadores e pelas múltiplas previsões do fim do mundo, a História mundial está cheia de mistérios. E, sendo certo que alguns já foram desmistificados, outros continuam à espera de uma explicação convincente. Já ouviram falar destas histórias? Então de certeza que vão gostar de as relembrar. E quanto às que não ouviram... bem, há umas quantas surpresas à espera.
Pensado para um público jovem, mas muito interessante para leitores de todas as idades, este é um livro que cativa, acima de tudo, pela forma como consegue construir, para cada um dos tópicos, uma exposição simples e intrigante, realçando não só os aspectos mais misteriosos (e as inevitáveis teorias da conspiração), mas também as explicações que foram sendo obtidas ao longo do tempo. O resultado é uma percepção mais ampla, ainda que assente em explicações sucintas, tanto dos mitos, como da realidade subjacente.
Se o registo simples e cativante, associado, naturalmente, ao tema, bastam para despertar a curiosidade, há ainda um outro aspecto apelativo a salientar: o visual. Profusamente ilustrado e de uma forma que torna tudo mais perceptível, este é um livro em que um folhear superficial basta para chamar a atenção. E depois, quando se começa a ler, este apelo reflecte-se no texto, que, com a sua simplicidade, desperta curiosidade e vontade de saber mais.
Claro que, sendo as explicações tão breves, fica sempre um pouco insatisfeita a tal vontade de aprofundar mais o conhecimento. Mas a verdade é que não é esse o objectivo do livro. O que fica é uma visão geral do que se sabe sobre esses grandes mistérios - visão que, considerada como um todo, realça também a vastidão de coisas que não têm ainda explicação. Para o resto, haverá outras possibilidades a explorar. 
E assim a soma das partes é um livro leve e cativante em que para cada grande mistério surge uma explicação sucinta, mas também muito intrigante. Uma boa leitura para descobrir as estranhezas do mundo - para os mais novos e não só. 

Título: Os 22 Mistérios da História
Autora: Geòrgia Costa
Origem: Recebido para crítica

domingo, 10 de dezembro de 2017

Nenhuma Verdade se Escreve no Singular (Cláudia Cruz Santos)

Amália sempre se considerou uma mulher forte e essa convicção nunca deixou de se manifestar também na forma como aborda a sua profissão. Pelo seu tribunal, passam casos desesperados, situações que se descontrolaram, vidas inevitavelmente perdidas, de uma forma ou de outra. Mas, às certezas cada vez menores da sua vida profissional, juntam-se também as mudanças na vida pessoal. O homem que amava partiu sem grandes explicações. E Marta, a criança que decidiu acolher, pode necessitar da sua ajuda, mas aquilo por que mais anseia é voltar ao mundo que conhece e ao avô que, apesar de todos os problemas, é a sua âncora. Cada vez mais só nas complexidades da vida, Amália começa a questionar as suas certezas. Mas a verdade nunca é única nem absoluta. E cada resposta que julga encontrar traz apenas novas perguntas ao seu pensamento.
De ritmo relativamente pausado e com um enredo que se propaga em múltiplas direcções, este não é propriamente um livro de leitura compulsiva, já que tudo, desde as complexidades sentimentais ao entrelaçar dos factos mais difíceis, exige um certo tempo para absorver. Mas o mais interessante nesta leitura é que este registo mais lento, centrado em grande medida na introspecção, apesar de divagar para as vidas de diferentes personagens, nada retira ao impacto da história em si. Muito pelo contrário, aliás, pois a visão cada vez mais complexa que Amália tem da sua vida torna-se também cada vez mais verdadeira. A vida é complexa, afinal. Isso é inegável.
Também particularmente impressionante é que, embora grande parte da história seja vista do ponto de vista de Amália, há todo um cenário mais vasto a considerar. Dos casos que Amália julga no tribunal, bem como da história de Marta, de Madalena e da própria relação falhada de Amália, emergem questões muitíssimo pertinentes, como a importância da família biológica, a possível falibilidade do sistema jurídico ou a forma como o que se julga ser o melhor e o que realmente o é nem sempre são a mesma coisa. E esta complexidade surge não só da percepção de Amália, mas também dos comportamentos das personagens que a rodeiam. Marta, em particular, é um poço de complexidade: vulnerável, encantadora, mas obstinada nas suas vontades e capaz de atacar onde mais dói. Uma criança, mas com uma maturidade assustadora. Frágil, em certos aspectos, mas mais que capaz de se defender. 
E, claro, o fluxo da escrita parece ajustar-se perfeitamente a esta jornada de percepção. Pausada, introspectiva, divagando entre as diferentes facetas da narrativa, mas sem perder de vista a perspectiva global, dá a voz certa a cada figura e a cada momento, realçando, em cada situação, o que realmente importa. No fim, é certo que não há resposta para tudo - como na vida também as não há. Mas faz sentido a forma como tudo termina, num ponto de viragem que é apenas insinuado, mas que abre portas a toda uma nova fase da vida.
Nenhuma verdade se escreve no singular. É bem verdade esta afirmação. E é também esta a imagem que fica deste livro: a de uma caminhada por duras veredas em que a única verdade universal parece ser a da infinita complexidade do ser humano. Marcante, pertinente e com muito material em que pensar, um livro memorável em todos os aspectos. E que recomendo, naturalmente. 

Título: Nenhuma Verdade se Escreve no Singular
Autora: Cláudia Cruz Santos
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A Vida Louca dos Reis e Rainhas de Portugal (Orlando Leite, Raquel Oliveira e Sónia Trigueirão)

Das visitas a conventos com fins pouco religiosos às guerras sucessórias com razões mais ou menos plausíveis, passando pelos muitos casos de alcova, traições e tentativas de traição e extensas ou reduzidas descendências mais ou menos legítimas, a história de Portugal está cheia de casos peculiares. E, sendo embora uma história de séculos, há factores que parecem repetir-se num ciclo infinito: as dificuldades económicas, a vida amorosa não muito dada à monogamia e, principalmente, a rede de influências das diferentes classes em torno da mente e das acções dos soberanos. De todos os reis e rainhas há uma história para contar - e, de forma muito simples e sucinta, é isso mesmo que este livro faz.
Muito longe de ser um livro exaustivo nos aspectos da História que aborda, este é, ainda assim, um bom livro para quem quer saber um pouco mais sobre os aspectos mais pessoais da vida dos monarcas portugueses, pois, centrado nas histórias de amores e desamores, casamentos de conveniência e grandes paixões extra-conjugais, é sobre as facetas menos... regulares... de cada monarca que este livro mais se debruça. Ainda assim, não entra em grandes pormenores, centrando-se antes num traçado em linhas gerais do percurso de cada protagonista, incluindo os elementos mais importantes e também as peculiaridades.
Ora, reduzir um reinado a poucas páginas deixa inevitavelmente muito por contar e, assim sendo, este não será propriamente o livro certo para quem estiver à procura de pormenores. Para ficar a conhecer - ou relembrar - o básico, porém, esta será, sem dúvida, uma boa leitura, não só porque a informação fundamental está lá, mas também porque os aspectos invulgares tornam tudo mais cativante, despertando também a vontade de saber mais.
A impressão que fica é, portanto, a de uma forma simples e intrigante de descobrir um pouco da história dos vários monarcas portugueses - e, através deles, da evolução do reino ao longo dos tempos. Uma leitura simples e sintética, mas com muita informação interessante. E, por isso, um belo ponto de partida para o desvendar de uma história que, como se sabe, é sempre muito mais vasta. 

Título: A Vida Louca dos Reis e Rainhas de Portugal
Autores: Orlando Leite, Raquel Oliveira e Sónia Trigueirão
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O Corpo Humano para Montar

O conceito de aprender brincando é algo que nunca passa de moda - talvez porque torna a aprendizagem muito mais divertida. E que melhor maneira de começar a aprender os elementos básicos do corpo humano senão com um livro colorido que não só explica as bases de forma simples como permite construir um modelo onde tudo isso se pode ver? Bem, é esta experiência que este pequeno livro proporciona. E o resultado é bastante interessante.
Claro que se olharmos para um livro destes enquanto adultos, tudo parece muito, muito simples, talvez até demasiado. Mas, se nos lembrarmos de como foi aprender as primeiras coisas sobre o corpo humano, já não é bem assim, pois não? Além disso, não é que este livro pretenda servir como transmissor de uma grande dose de conhecimento. O que ensina são as coisas simples, o princípio de um conhecimento que mais tarde se expandirá. E, para os mais pequenos, que começam agora a aprender as coisas, então este modelo simples e interactivo é uma muito boa forma de aprender os primeiros aspectos - e de despertar a curiosidade de saber mais.
Claro que, sendo um livro para os mais novos, a acessibilidade é essencial, não só no conteúdo, como na construção do modelo em si. E esse é outro ponto positivo. Além do visual apelativo que chama a atenção e facilita a memorização do conhecimento, também o modelo é muito fácil de montar, proporcionando assim uma experiência didáctica e divertida aos potenciais jovens leitores deste livro. 
É, de facto, muito simples e principalmente um ponto de partida. Será, por isso, acima de tudo, um livro para aqueles que começam a aprender, pois para um conhecimento mais pormenorizado haverá decerto livros mais adequados. Mas, para os mais pequeninos? Bem, é uma bela forma de começar a descobrir o corpo humano. E é assim que se começa a querer saber mais. 

Título: O Corpo Humano para Montar
Autor: Vários
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Bougainvillea (Antonio Orlando Nomeriano)

Joell deixou à mãe um jardim esplendoroso e depois desapareceu. Mas Gille não se conforma com a ausência do filho e, por isso, decide contratar um detective para que descubra o que realmente aconteceu. A verdade, sabe, está escondida algures no passado. Mas um passado que escondeu grandes segredos e abalou a mais forte das amizades não pode senão trazer consequências terríveis. E, quando descoberta, a verdade poderá ser difícil de aceitar...
Muito breve, apesar de abranger um período relativamente vasto, este é um livro que deixa sentimentos ambíguos. Por um lado, o potencial da história é evidente e a revelação final tem tudo para ser um momento de grande impacto. Por outro, a narrativa demasiado sucinta em contraponto com algumas longas - e não muito necessárias - explicações, principalmente no que diz respeito à jardinagem, torna o ritmo do enredo um pouco errático. Além disso, também a escrita um pouco confusa, com divagações pelo passado, contribui para essa sensação geral.
O que se destaca, então? Bem, acima de tudo, o potencial de uma história que podia ter sido muito mais vasta, já que, quer o mistério em si, quer a sua surpreendente resolução, quer ainda as relações passadas entre as várias personagens têm muito de interessante e que poderia ter sido muito mais desenvolvido. Há bons momentos? Há, com certeza. E é precisamente por isso que fica o tal sentimento de que haveria muito mais para contar.
Mas é principalmente a escrita que deixa esta sensação de ambiguidade, a oscilação entre momentos em que tudo acontece demasiado depressa, onde actos e explicações parecem ficar sem grandes consequências, enquanto noutros momentos a explicação se alonga em aspectos de menor importância. Além disso, parece haver também alguma irregularidade na estrutura do texto, já que nalguns dos diálogos não se percebe muito bem quem está a falar. Tudo isto acaba por contribuir para a sensação de confusão geral e de que, com um pouco mais de coesão, a intensidade da história - que tem, de facto, muito potencial - poderia ter sido muito mais amplificada.
Tudo somado, a impressão que fica é a de um livro breve e agradável quanto baste, mas que poderia ter sido muito mais. No seu grande mistério e nos muitos segredos que a ele conduziram há todo o potencial de uma grande história. Pena que tenha acabado por ficar tão curta.

Título: Bougainvillea
Autor: Antonio Orlando Nomeriano
Origem: Recebido para crítica

domingo, 3 de dezembro de 2017

Como Parar o Tempo (Matt Haig)

Tom Hazard tem o aspecto de um homem de quarenta anos - mas, na verdade, a sua idade conta-se em séculos. E, no decurso da sua longa vida, amou, perdeu, sofreu injustiças, teve vontade de morrer... e sobreviveu. Pelo caminho, conheceu alguns famosos do passado, foi recrutado (até porque não tinha escolha) para uma misteriosa sociedade e nunca mais voltou a permitir-se sentir por ninguém. Mas agora Tom sabe que não pode continuar assim e sente que precisa de voltar ao lugar onde tudo começou. De novo em Londres, como professor de história, Tom revisita as memórias de um passado demasiado longo, ao mesmo tempo que um sentimento indesejado - mas não desagradável - começa a nascer. Mas quem entra na sociedade não volta a sair com vida. E o seu estranho mentor está atento ao comportamento de Tom. 
Impressionante desde as primeiras frases e até ao fim, este é um livro em que todos os aspectos são fascinantes, mas em que, inevitavelmente, o primeiro a sobressair é a escrita. Matt Haig formula pensamentos com uma mestria tal que, de início, é inevitável a vontade de começar a tomar notas das citações. (E depois já são tantas as citações notáveis que o mais provável seria tomar nota do livro inteiro.) Há tanta beleza nas palavras, tanta naturalidade na forma como tudo flui e, principalmente, uma sensação tão forte de que tudo se exprime da forma ideal, que é irresistível o apelo de esquecer o mundo, parar o tempo e mergulhar na leitura sem interrupções.
E a escrita é apenas o início, pois personagens e enredo são também igualmente marcantes. O enredo, porque há na história de Tom ao longo dos séculos - e principalmente no presente - todo um percurso de aventuras e de perigos e perdas e descobertas e cada momento é intenso e cativante. As personagens, porque ninguém é perfeito, mas todos são perfeitamente construídos. E Tom... Bem, Tom é um protagonista fascinante, profundamente humano na sua diferença, capaz de sentimentos imensos e de ainda maiores vulnerabilidades, consciente e crédulo consoante os fluxos da vida.
O que me leva ao que é, para mim, o verdadeiro pináculo desta leitura: a emoção. Durante a sua longa vida, Tom lidou com todo o tipo de situações e pessoas e esse percurso está, naturalmente, pejado de emoções intensas. Mas a forma como estas emoções se manifestam, tanto em pensamentos certeiros como em momentos pura e simplesmente devastadores, nunca deixa de surpreender e de marcar. E mais. Há em todo este longo percurso tantas raízes de empatia que compreender Tom faz-nos sentir também um pouco compreendidos. E isso... bem, isso é uma magia especial.
Que mais se pode pedir a um livro? Por toda a beleza das palavras, bem como pela emoção e proximidade que história e personagens despertam e pela sempre fascinante aventura da longa vida de Tom Hazard, a verdade é que, no fim, fica-se de coração cheio. Magia - é isso que se encontra nas páginas de uma boa leitura. E este livro é, de facto, pura magia. Maravilhoso. 

Título: Como Parar o Tempo
Autor: Matt Haig
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Consciência (Charlie S. Dias)

Desde pequenos que Derick, a irmã e a amiga River são amigos inseparáveis. Mas uma separação forçada leva-os a novos pensamentos e à descoberta de novas relações. Os irmãos parecem fechar-se em si mesmos, enquanto River encontra no mundo digital o refúgio de que precisa. E quando o tempo passa  e o reencontro finalmente surge, nenhum deles é já o mesmo e uma nova amizade - que aspira a ser algo mais - intromete-se na tranquilidade do trio. O afecto torna-se amor não correspondido, e esse transforma-se em mágoa. E, no momento em que a vida se torna demasiado pesada, só uma estranha peregrinação poderá lançar sobre a vida uma nova luz.
Relativamente breve, e porém abrangendo um vasto período de tempo, uma das primeiras impressões que este livro desperta é a de que facilmente se poderia ter expandido para uma história muito maior. As relações entre os protagonistas, a forma como lidam com a separação, a própria viagem de Derick na fase mais avançada do enredo... tudo isto poderia ter sido muito mais elaborado. Assim sendo, é inevitável uma certa sensação de curiosidade insatisfeita. Mas há também uma contrapartida. É que, pese embora o que fica por contar, o essencial está lá - e esse é mais do que suficiente para cativar. 
Sendo que grande parte da história se centra na relação entre os três amigos, bem como na descoberta de novas relações, pode dizer-se que esta é, acima de tudo, uma jornada de crescimento. E é neste aspecto que surge o lado mais interessante deste pequeno livro: o facto de, apesar da brevidade, ser perfeitamente possível reconhecer os pontos essenciais deste percurso. Os factores que abalam uma amizade, a descoberta de relações mais profundas, a chegada à vida adulta e a sensação de não se estar preparado... tudo isto surge, de certo modo, ao longo da história. E, simpatize-se ou não com a posição das personagens, é fácil reconhecer pontos em comum com a realidade. 
Se o aspecto emocional é fácil de assimilar, já ao nível dos acontecimentos nem sempre é fácil acompanhar o passo das personagens. Talvez também devido à brevidade, há aspectos que parecem ser um pouco confusos, sobretudo na fase inicial. Após a entrada em cena de Consciência, contudo, a história parece fluir com mais naturalidade e, em consequência, o ritmo torna-se bastante mais envolvente.
No fim, a impressão que fica é a de uma viagem por vezes atribulada, mas sempre cativante e com uma visão muito interessante da jornada em direcção à idade adulta. Haveria mais para contar? Certamente. Mas o essencial está lá... e isso basta. Gostei. 

Título: Consciência
Autor: Charlie S. Dias
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Síndrome de Peter Pan (Eliana G. Pyhn)

Virna e Miguel conhecem-se numa plataforma de relações online e o relacionamento entre ambos não tarda a tornar-se algo mais forte. A empatia é quase imediata e a partilha de experiências e sentimentos faz com que a relação entre ambos se aprofunde. Mas há algo de potencialmente perigoso nas interacções entre ambos. É que Miguel sofre da chamada síndrome de Peter Pan, ou seja, não está disposto a crescer, o que significa que só os seus planos e necessidades importam. Confrontada com a difícil verdade, Virna terá de fazer escolhas difíceis. Mas, quando ela própria se expôs tanto, será ainda capaz de se afastar?
Assente num elaborado exemplo prático para destacar as principais características e problemáticas da chamada síndrome de Peter Pan, este é um livro que desperta curiosidade não só pelo tema, mas pela forma como é abordado. E é também aqui que está o seu ponto forte, pois, ao transmitir as ideias através do relato da relação entre duas personagens, os traços essenciais tornam-se mais fáceis de compreender e a identificação com a realidade também muito mais clara. Além disso, a escrita bastante acessível - principalmente nas partes explicativas - também facilita a assimilação dos conceitos.
Há, porém, um outro lado. Construída com uma mensagem em mente, a troca de correspondência entre Virna e Miguel parece, por vezes, um pouco forçada, além de que, embora as fragilidades abordadas sejam todas do lado de Miguel, também do lado de Virna há comportamentos... difíceis. É fácil compreender que Virna está a ser influenciada pela personalidade de Miguel, mas não em tudo. A forma como se posiciona face ao relacionamento extra-conjugal em que se envolveu bem como os julgamentos que emite sobre as outras pessoas na vida de Miguel parecem ser, por vezes, demasiado radicais, ficando por isso a sensação de que também do lado dela haveria aspectos a abordar. E assim, se por um lado a mensagem é clara, já do exemplo prático ficam uns quantos sentimentos ambíguos.
E depois fica uma certa curiosidade insatisfeita, pois, se o exemplo parece desenvolver exaustivamente as características do diagnóstico, já as possibilidades de tratamento parecem resumir-se numa linha final, deixando a sensação de que haveria certamente muito mais a dizer quanto a este aspecto.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura interessante e com um tema pertinente, mas em que o desenrolar um pouco forçado da correspondência e aquilo que é deixado por dizer deixam a impressão de que muito mais haveria a explorar sobre este assunto. Interessante, ainda assim. 

Título: A Síndrome de Peter Pan
Autora: Eliana G. Pyhn
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Três Minutos para o Juízo Final (Joe Navarro)

1988. O que começa por ser uma aparente missão de acompanhamento para o agente Joe Navarro revela-se o início de uma investigação labiríntica. E tudo por causa de um cigarro que treme. A mão que segura o cigarro pertence a Rod Ramsay, aparentemente amigo de um homem recentemente preso por espionagem, mas, de momento, livre de suspeitas. Só que o tal cigarro que treme é um indício de muito mais e, pressentindo isso, Joe não pode simplesmente largar o caso. E assim começa uma investigação de anos, contra a inércia dos superiores e uma mente muito mais arguta do que aparenta.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro é que, pese embora o facto de não ser ficção, se lê praticamente como um romance. A precisão das memórias e a forma como são contadas, bem como a intensidade inerente ao caso em si, fazem com que este livro tenha o mesmo ritmo cativante de qualquer bom policial. Além disso, e ainda que seja o caso o centro de tudo, Joe é bastante aberto sobre as suas próprias circunstâncias, o que transmite bastante bem o caos emocional associado a toda a situação.
Claro que há uma contrapartida em tudo isto. É que, ao ler o livro como se de um thriller se tratasse, procuram-se respostas que não podem realmente ser dadas, porque o próprio protagonista não as tem. E, claro, isto deixa uma certa curiosidade insatisfeita, nomeadamente em relação ao porquê de certas posições das autoridades superiores. 
Se isto retira impacto ao muito que é efectivamente contado? Não. E o impacto é grande, porque vem de várias fontes. Primeiro, o caso propriamente dito e as implicações cada vez mais graves que lhe estão associadas reforçam a seriedade das circunstâncias que nos estão a ser narradas. Depois, a forma como os vários intervenientes são descritos, tendo o cuidado de os reflectir enquanto seres humanos completos (e, neste caso, o inimigo de Joe é todo um posso de complexidades) torna mais fácil entender os verdadeiros meandros de toda a situação. E depois, a forma como o autor decide terminar a sua história, indo além do caso em mãos para mostrar as consequências pessoais, reforça o impacto de toda a investigação, pois lembra que todos os envolvidos - e de todos os lados - são ainda e sempre humanos.
A impressão que fica é a de um livro que, não sendo ficção, se lê como tal e que, por isso, pese embora as respostas que ficam por dar, consegue prender do início ao fim e surpreender em todos os aspectos. Muito interessante, portanto, e uma boa leitura.

Autor: Joe Navarro
Origem: Recebido para crítica

domingo, 26 de novembro de 2017

Sonetos (Luís de Camões)

De amor e sombra, de tempos mutáveis, dos grandes que partiram e das mágoas que ficaram. De tudo isto e mais se compõem estes sonetos. Sonetos que todos conhecemos, quanto mais não seja dos anos passados na escola a dissecar e interpretar e dividir em sílabas métricas, tentando, ao mesmo tempo, assimilar a estrutura e absorver o sentido dos versos. Mas talvez seja precisamente por isso que é tão interessante este regresso: passados uns bons anos dessa análise estrita e exaustiva, ler os sonetos pelo que são, assimilando simplesmente a harmonia das palavras e a força da mensagem subjacente, transmitem à leitura um renovado impacto - e, talvez, a descoberta de um lado ainda mais cativante para esta poesia.
E o mais cativante é precisamente que o passar dos anos - ou dos séculos - nada retirou da relevância dos poemas. O sentimento subjacente continua tão presente como o ritmo estruturado dos versos. A visão do amor intangível e insuportável, do amor atormentado que move o mundo à desgraça, é algo de intemporal e, assim sendo, é incrivelmente fácil entrar (ou reentrar) na aura destes poemas e reconhecer a dor e a ânsia e o amor imorredouro do sujeito poético. E, quando se trata de poemas sobejamente conhecidos (e, mais uma vez, exaustivamente dissecados) esta sensação simultânea de familiaridade e de novidade não deixa de ser algo de particularmente impressionante.
Escusado será dizer que são essenciais - o tal tempo de dissecação na escola encarregou-se de vincar essa ideia. Mas é interessante reparar que, numa nova leitura mais livre, essa natureza sai talvez ainda um pouco mais vincada. Também estes sonetos foram parte do que me despertou para a poesia, mas ao lê-los agora de um ponto de vista estritamente pessoal (sem pensar em sílabas nem em análises para exames futuros) a naturalidade da forma e a intensidade do conteúdo tornam-se ainda mais evidentes. A arte e a beleza continuam lá - e é também isso que torna este regresso tão marcante. 
E é precisamente essa a impressão que fica desta leitura: a de um regresso marcante a uma poesia já conhecida, agora com um olhar mais aberto e um maior impacto para a verdadeira profundidade dos sentimentos nela contidos. Belíssimos, marcantes e intemporais, vale sempre muito a pena regressar a estes sonetos.

Título: Sonetos
Autor: Luís de Camões
Origem: Aquisição pessoal

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

After Dead (Charlaine Harris)

Depois de terminadas as aventuras de Sookie Stackhouse, e tendo em conta a rapidez do fim, ficou em aberto uma certa curiosidade: o que aconteceu às muitas e peculiares personagens de Bon Temps e arredores? Bem, este livro traz as respostas e fá-lo de forma muito simples e sucinta, numa enumeração por ordem alfabética do futuro dos principais intervenientes nesta longa e atribulada aventura. Se satisfaz a curiosidade? Bem, depende do que se procura. Mas vamos por partes.
O principal ponto positivo deste livro - e comum, naturalmente, a muitas outras séries - é que é sempre bom rever, por mais brevemente que seja, as personagens que, ao longo do longo caminho de uma série, se tornaram queridas. E se tivermos em conta a forma como tudo terminou no último livro da série, então é especialmente interessante saber um pouco mais do que vem depois. Tendo isto em vista, para quem gosta da série a leitura nunca deixará de ser um regresso agradável, até porque as ilustrações que acompanham o texto fazem também lembrar enredos passados.
Mas há um outro lado para tudo isto. É que o impacto das personagens ou o papel que desempenharam na história conduzem agora a um fim demasiado breve. Há desenvolvimentos futuros - principalmente no caso de Bill, mas não só - que justificavam por si mesmos uma nova história. Resumi-los em poucos parágrafos acaba por ficar um pouco aquém das expectativas, pois responde à pergunta que motivou a leitura - o que aconteceu depois? - mas acaba por deixar novas perguntas e, portanto, nova curiosidade insatisfeita.
Não deixa de ser uma leitura interessante, até porque há algumas revelações inesperadas. E, mais uma vez, tendo em conta a forma como tudo terminou, é interessante descobrir o que vem depois. Além disso, e apesar da brevidade, esta pequena conclusão está longe de ser uma síntese de "felizes para sempre". Não. Tal como no longo caminho da série, também aqui há um pouco de tudo: histórias que acabaram bem, histórias que acabaram em tragédia e... bem... histórias que não acabaram de todo.
A impressão que fica é, por isso, a de um regresso breve e agradável, que podia, talvez, ter sido algo maior. Ainda assim, não deixa de ser uma leitura cativante e, para quem seguiu atentamente a série, um belo reencontro com velhos conhecidos. Gostei.

Título: After Dead
Autora: Charlaine Harris
Origem: Aquisição pessoal

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Se Conhecessem a Minha Irmã... (Michelle Adams)

Irini foi entregue à tia para que esta a criasse. Elle ficou com os pais. E Irini nunca soube ao certo o porquê da rejeição. Agora, a mãe morreu e uma inesperada chamada de Elle - de quem Irini passou os últimos anos a fugir - traz consigo o velho medo e uma nova esperança de descobrir a verdade. Mas, de regresso a casa para o funeral da mãe, Irini dá consigo perante novas perguntas e presa no mesmo círculo de amor e ódio que sempre a prendeu à irmã. Há algo de sombrio em Elle e Irini sabe isso como ninguém. Mas, quando a verdade finalmente vier à tona, nada voltará a ser o mesmo...
Narrado na primeira pessoa pela voz de Irini e acompanhando do mesmo modo o seu regresso e as suas dúvidas, a primeira coisa a prender neste livro é a intensa aura de mistério que surge logo das primeiras páginas. Elle e Irini podem ter sido separadas, mas cedo se torna claro que têm algo em comum. E este mistério - do porquê da separação, mas também de tudo o que as uniu e voltou a separar depois disto - desperta de imediato uma forte curiosidade em saber mais. Sobre o passado e sobre o que acontece a seguir.
Claro que este mistério é a raiz de toda a narrativa e há muitos momentos intensos, situações tensas e grandes revelações à espera ao longo do percurso. Mas o mais impressionante - e há, ao longo do enredo, vários momentos de grande impacto - vem mais das personagens que propriamente do enredo. Seria, talvez, fácil cair na tentação da irmã boazinha e da irmã malévola, mas o que acontece neste livro é algo de muito mais complexo. Elle tem sérios problemas - e o que a move, o que faz, o tipo de jogos a que se entrega - faz dela uma personagem perfeitamente adequada a um papel de vilã. E Irini, com o seu papel de rejeitada pelos pais, a sua vida distante, mas relativamente calma, tanto podia ser a vítima como a heroína (ou um pouco de ambas). Só que a verdade é sempre mais complexa - e é isso mesmo que a torna fascinante. Há medida que mais é revelado sobre as personagens, a distância que separa as duas irmãs é atenuada pelo que têm em comum. E, numa história com tanto de complexo e de sinuoso, o facto de as protagonistas serem também complexas e ambíguas só vem acrescentar valor.
E depois há o factor surpresa. Desde o início que há um mistério a desvendar e explicações que é preciso dar. O que não é propriamente expectável é a forma que essas respostas tomam no decorrer da narrativa e, principalmente, os meandros e ambiguidades subjacentes a essas respostas. Aliás, nem tudo tem uma resposta explícita. Mas, entre as verdades reveladas e o muito que fica implícito, a verdade é que tudo culmina numa resolução final tão intensa como adequada - em que os verdadeiros papéis de cada um ficam bem claros... bem como o facto de haver mais vida para lá desses papéis.
Intenso, tortuoso e sempre intrigante, trata-se, portanto, de um livro que prende desde as primeiras páginas e não deixa de surpreender até ao fim. Uma história onde ninguém é o que parece - e muito menos o passado é tão simples como os factos parecem insinuar. Recomendo. 

Título: Se Conhecessem a Minha Irmã...
Autora: Michelle Adams
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 21 de novembro de 2017

The Living Memory (Tim Byrne e Emma Dyer)

Io tem um dom. A sua extraordinária memória permite-lhe reviver e reajustar tudo o que alguma vez viu, sentiu ou viveu. Mas um dia as suas explorações vão um pouco longe demais e Io dá por si expulsa da sua vida real e nas memórias de outra pessoa. Talia é a assistente de um mesmerista na Londres vitoriana e não parece ficar nada satisfeita com a sua hóspede – ou delírio – inesperado. Mas ambas partilham o mesmo dom e Talia pode fazer maravilhas com a sua memória. À medida que começam a descobrir o que têm em comum, o dom de Talia atrai atenções inesperadas. E não tarda a que Talia e Io se vejam envolvidas no meio de um duelo entre ciência e magia – ou na visão que alguém tem sobre ambas. Apanhadas nos meandros de duas organizações diferentes, Talia e Io têm de decidir o que querem fazer das suas vidas. Caso contrário, ficarão presas para sempre.
Narrado pela voz de Io, mas com um vasto cenário de tempos e imaginação, uma das primeiras coisas a impressionar neste livro é a extraordinária visão das memórias que evoca. Da memória enquanto algo fluido e mutável, mas também parte fundamental da alma. E isto é algo… bem, memorável – principalmente por dar vida a todo um novo mundo, com todos os seus perigos e maravilhas. O dom de Io é algo de especial e basta para intrigar desde o início. Mas, a partir do momento em que as suas capacidades se expandem para um cenário mais vasto, tudo se torna ainda mais impressionante. E Talia… bem, enquanto homóloga de Io, é óbvio que têm muito em comum. Mas também têm as suas próprias características e personalidades, e isso torna a história muito mais empolgante.
Io e Talia são a alma desta história, principalmente pois grande parte acontece dentro das suas memórias. Mas o próprio cenário é bastante impressionante, em primeiro lugar por seguir duas épocas muito diferentes, mas principalmente devido à intensidade do enredo. Mandeville, os Memento Mori, os Imortais… há tanto de fascinante nesta história que é difícil deixá-la para trás depois de terminada a leitura.
E há também uma mensagem muito positiva. Muitos dos problemas de Io – e de Talia também – vêm de terem escolhido fazer o que delas se espera ou o que pensam que deixará os outros felizes em vez do que realmente querem fazer. E o seu caminho é tanto de perigos e aventuras como de descoberta do que realmente querem. A vida é feita de escolhas – e as delas trazem consigo uma evolução impressionante.
Intensamente urdido, muitíssimo bem escrito e com uma história tão poderosa como as muito impressionantes personagens que nela vivem, a soma de tudo isto dá uma leitura muito intensa e fascinante, uma grande história sobre os labirintos da memória e a necessidade de fazer a diferença no presente e um livro que, sem dúvida alguma, recomendo.

Título: The Living Memory
Autor: Tim Byrne e Emma Dyer
Origem: Recebido para crítica

domingo, 19 de novembro de 2017

Através dos Meus Pequenos Olhos (Emilio Ortiz)

Cross é um jovem cão-guia pronto a conhecer o mundo no desempenho das suas funções. Mario é um jovem invisual que aguarda com expectativa a chegada do seu novo companheiro e guia. E juntos têm toda uma vida pela frente. Inseparáveis não só pela necessidade, mas principalmente pelo afecto crescente, Mario e Cross descobrem o mundo de uma forma diferente - com a confiança que os une a tornar mais fáceis de superar todas as barreiras. Mas o mundo nem sempre vê com bondade as diferenças dos outros - e também para superar isto toda a ajuda será necessária.
Um dos aspectos mais cativantes deste livro, e também parte da sua beleza, é o facto de a história ser contada por Cross. Cativante, porque Cross surge-nos como um protagonista divertido e descontraído, com o qual é fácil acompanhar os bons momentos e os maus e vê-lo crescer (bem como a Mario) de uma forma sempre surpreendente. Mas, acima de tudo, relevante. Porquê? Porque ao ver o mundo pelos olhos inocentes de Cross, tudo ganha um novo impacto - e isto aplica-se tanto à bondade das pessoas como à maldade. O resultado é que tudo ganha um maior impacto: o afecto e a alegria, mas também os obstáculos, cuja verdadeira importância só é verdadeiramente entendida por quem vive com eles.
A relevância é, portanto, indiscutível. Mas também há magia a acontecer nesta história: magia na pura simplicidade dos afectos, na relação cada vez mais forte entre Mario e Cross, nos muitos momentos divertidos ou empolgantes ou pura e simplesmente enternecedores que marcam o caminho dos protagonistas. E na verdade subjacente a tudo isto - no facto de, embora na vida real os cães não possam falar (pelo menos com palavras), aquilo que Cross vai contando ser absolutamente realista.
E isto leva-me ao ponto que me deixou sentimentos ambíguos. É certo que um cão-guia é muito mais do que um simples animal de estimação e, com o passar dos anos e o inevitável envelhecimento, torna-se necessário encontrar outro tipo de soluções. Mas tudo neste livro se encaminha para uma grande escolha e, dadas as opções apresentadas, não é propriamente fácil entender essa escolha. E, claro, por um lado, faz sentido. Mas, emocionalmente falando, ficam os tais sentimentos ambíguos e a ideia de que talvez pudesse ser de outra maneira.
Não que isto retire impacto a tudo o resto. Há em todo o percurso uma bonita jornada de crescimento - tanto para Mario como para Cross - e vários momentos marcantes ao longo do caminho. E há verdades difíceis, também, e uma inegável relevância que só sai reforçada pela simplicidade de uma escrita que parece ajustar-se na perfeição ao seu narrador. Nem tudo é perfeito? Não. Na vida, também não é. E, tal como na vida, também aqui há escolhas difíceis, nem sempre fáceis de entender - mas feitas tendo sempre em vista o melhor.
A imagem que fica é, portanto, a de uma história bonita, cativante e acima de tudo relevante. Uma chamada de atenção para os obstáculos com que os invisuais têm de lidar sob a forma de um romance terno, realista e com muitas boas surpresas pelo caminho. Gostei.

Autor: Emilio Ortiz
Origem: Recebido para crítica

sábado, 18 de novembro de 2017

Cartas a Um Jovem Escritor (Colum McCann)

Escrever um livro. Há quem ache que parece fácil. Há quem tente com todas as forças, mas não consiga suportar o resultado. Há os que fracassam, os que desistem, os que persistem, os que alcançam o sucesso. Mas há regras? Não propriamente. E muito menos se se pretender que a regra seja mais ou menos universal. Ainda assim, pode ser útil ver outra perspectiva. E se, em vez de regras, procurarmos conselhos... bem, a utilidade aí pode ser quase ilimitada. É isso precisamente que este livro apresenta: uma muito empolgante mistura de conselhos práticos e de pura e simples inspiração, sem nunca fazer com que as coisas pareçam mais fáceis do que realmente são, mas complementando a enumeração das dificuldades com várias orientações úteis e precisamente a dose certa de motivação. O resultado? Bem, muitas ideias relevantes... e uma mistura de nostalgia e de vontade irresistível de escrever. 
Comecemos pelo aspecto (aparentemente) mais simples: a forma. Basta o título para evocar Rilke e as suas Cartas a Um Jovem Poeta e é, na verdade, bastante fácil identificar pontos comuns como a simples (mas verdadeira) ideia de que ninguém pode apontar um único e derradeiro caminho certo. Ainda assim, é este ponto de partida que torna tudo tão interessante, pois, através dos seus curtos mas elucidativos capítulos, a autor conduz o seu jovem interlocutor através das múltiplas facetas da escrita (e da publicação também) sem nunca perder de vista que o que resulta para uns não resulta para outros. Ah, e mais importante, claro: o que realmente importa é o que está na página.
Ora, não havendo regras universais, será de pensar que a utilidade dos conselhos práticos é algo relativa. Talvez seja. Ainda assim, é sempre pertinente conhecer a visão e o percurso de alguém mais experiente. Mas, mais que os conselhos práticos - e sem lhes retirar a pertinência - há ainda um outro aspecto, e é esse que torna a leitura memorável: o lado inspirador destas pequenas (ou não tão pequenas) cartas. O retrato que o autor traça da escrita - penosa, angustiante, apaixonante, demanda de descoberta, missão através das palavras, apelo entre o silêncio, irresistível, irrevogável, essencial à sobrevivência - é algo com que muitos jovens (e menos jovens) escritores, aspirantes a escritores ou simples apaixonados pela literatura poderão reconhecer como próximo do que sentem. E há nesse ténue fio entre a estranheza e a familiaridade algo de tão profundo e de tão inspirador que - escreva-se ou não, queira-se ou não escrever - fica-se com a sensação de estar agora mais perto da palavra escrita.
E depois há citações. Não, não me refiro apenas às que abrem cada capítulo e que, ao acrescentarem a perspectiva de outros autores, tornam tudo ainda um pouco mais memorável. É que ao longo das próprias "cartas" há várias frases poderosas que, além de reforçarem o impacto da ideia, realçam em si mesmo a tal beleza etérea da literatura - que parece ser, afinal, a raiz de tudo o resto.
Conselhos e inspiração. É isto que o livro promete - e é precisamente o que apresenta. Cativante e esclarecedor, consegue, ao mesmo tempo que percorre os aspectos práticos da escrita, realçar o que nela existe que motiva e que apaixona, despertando (de novo) a vontade de voltar à página em branco e dar-lhe voz. Não há regras universais? Não, não há. Mas há formas de olhar a escrita que incitam a descobrir nela uma nova faceta. E essas estão bem presentes neste muito relevante livro. Recomendo.

Título: Cartas a Um Jovem Escritor
Autor: Colum McCann
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Último Beijo da Mamba Verde (Cesário Borga)

É na cantina de Salima que todos se encontram - militares, pides, estrangeiros, prostitutas - e é por lá que, entre festejos e bebidas, a guerra vai passando, deixando as suas marcas numas quantas vidas perdidas, mas, ainda assim, relativamente remota. Mas os tempos têm-se tornado mais perigosos e as relações cada vez mais complexas. Tudo começa com a relação proibida entre um rodesiano e uma prostituta negra. Aparentemente inocente, é mais que o suficiente para acicatar ódios latentes e avivar o fogo de uma guerra cada vez mais próxima. E, entre a paz aparente da cantina e os ataques cada vez mais perigosos, Salima dá por si apanhado no meio do caos, principalmente quando, após um ferimento, é levado para um hospital e aí encontra a mulher que lhe despertará o mais forte amor - e o mais fundo desejo de vingança.
Narrado pela voz de Salima e centrado, acima de tudo, na sua perspectiva do que o rodeia, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pela capacidade de exprimir com toda a naturalidade não só as impressões e sentimentos do protagonista, mas o estado de espírito geral daqueles que o rodeiam. Enquanto cantineiro, Salima convive com todo o tipo de gente e, talvez por isso, as suas impressões são vastíssimas. Além disso, a própria estrutura do romance propicia esta visão mais ampla, pois começa a partir de uma teia de vários elementos, para se ir depois centrando gradualmente num ponto focal mais nítido, mas, em certa medida, formado por tudo o que vem de trás.
Também muitíssimo marcante neste livro é a forma como, da humanidade de algumas personagens e da crueldade de outras, consegue sobressair não só uma história repleta de emoções fortes, mas também um romance cheio de temas pertinentes. As atrocidades da guerra, o racismo, o preconceito que move à crueldade gratuita e a influência dos poderosos que faz com que a alguns tudo seja permitido são apenas alguns dos muito importantes aspectos que emergem da leitura deste livro. E também eles emergem com naturalidade, por actos mais do que por palavras, o que lhes realça, naturalmente, o impacto que têm nas personagens e no leitor.
E depois, claro, há o impacto dos momentos propriamente ditos e a forma como, do que parece ser uma interacção aparentemente tranquila, emergem as raízes de uma crueldade maior. Há, nos momentos de alegria, uma estranha leveza que apenas potencia o impacto dos momentos cruéis. E, à medida que a narrativa se vai tornando mais sombria, como a vida do próprio protagonista, este contraste torna-se ainda mais evidente, reforçando a impressão de que tudo pode perder-se num só momento.
A imagem que fica é fascinante: por um lado, o percurso cada vez mais avassalador de uma guerra que se aproxima inexoravelmente; por outro, uma jornada emocional da descontracção à devastação. E, no fim, é isso mesmo que impressiona neste livro: a capacidade de nos fazer percorrer um caminho tão complexo como o das personagens e do contexto em que se movem. No fim, é isso que fica na memória. E a soma de tudo é algo de muito bom.

Título: O Último Beijo da Mamba Verde
Autor: Cesário Borga
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Divulgação: Novidade Presença

Nicola Yoon
Colecção: Ficção Juvenil n.º 26
Título Original: The Sun is also a star
Tradução: Isabel Maria Pettermann Frausto
ISBN: 978-972-23-6128-6 
Páginas: 352

A história de uma rapariga, um rapaz e o universo.
Natasha: Sou uma rapariga que acredita na ciência e nos factos. Não acredito no destino. Ou nos sonhos que nunca se concretizam. Não sou de todo aquele tipo de rapariga que encontra um rapaz simpático numa rua nova-iorquina cheia de gente e se apaixona por ele. Não quando a minha família está a doze horas de ser deportada para a Jamaica. Apaixonar-me por ele não será a minha história.
Daniel: Sou o bom filho, o bom estudante, correspondendo sempre às elevadas expectativas dos meus pais . Nunca fui o poeta. Ou o sonhador. Mas quando a vejo, esqueço tudo isso. Algo em Natasha faz -me pensar que o destino nos reserva, a ambos, alguma coisa muito mais extraordinária.
O universo: Cada momento das nossas vidas conduziu-nos a este momento único. Há um milhão de futuros perante nós. Qual deles se tornará realidade?

Nicola Yoon é autora de Tudo, Tudo... e Nós, o romance bestseller # 1 do jornal New York Times, que vendeu mais de um milhão de exemplares. Cresceu na Jamaica e em Brooklyn e vive atualmente em Los Angeles com a família. É uma romântica irremediável, acreditando firmemente que podemos apaixonar-nos num momento que poderá durar para sempre. Os direitos de O Sol Também é uma Estrela foram adquiridos por editores de mais de 30 países.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Distância de Segurança (Samanta Schweblin)

Às portas da morte e com a mente turvada, Amanda não tem senão um emaranhado de memórias confusas - e um estranho companheiro para a ajudar a recordar. Ao seu lado, David, uma criança, incita-a a procurar respostas com uma série de perguntas tão urgentes quanto misteriosas, guiando-a através de um passado também ele turvo, mas onde parece estar escondida a única verdade que importa. E as memórias vêm, como fragmentos atados - memórias de umas férias onde se fez uma nova amizade, de uma amizade que trouxe consigo um segredo sombrio e de uma partida adiada que abriu portas a um veneno sem nome. Presente sempre, a distância de segurança que insiste em unir uma mãe à sua filha, mesmo quando tudo indica que, na verdade, já é tarde demais...
Há algo de estranhamente fascinante na forma em como, de uma história tão breve, se consegue fazer emergir uma tão vasta complexidade. São pouco mais de cem páginas e, no entanto, há todo um mundo a descobrir no desfiar das memórias de Amanda. E um mundo de mistérios, entenda-se, pois, se o que move a protagonista é o simples e insuperável amor protector de uma mãe, o estranho cenário onde tudo parece acontecer desperta grandes e pertinentes perguntas. Afinal, a doença de Amanda, o misterioso passado de David, as estranhas decisões de Carla... em tudo isto há grandes enigmas - e nenhuma verdade absoluta (como não as há, de resto).
E, claro, tendo isto em conta, é inevitável a sensação de que ficam perguntas sem resposta. Mas também particularmente impressionante é que o facto de tudo isso ficar sem resposta só acrescenta à intensidade da narrativa, pois, sendo tudo tão estranhamente peculiar, faz apenas sentido que também as grandes tragédias pessoais das personagens sejam deixadas entre a explicação possível e a verdade maior que, embora presente, fica encoberta.
Mas há ainda a escrita, e uma escrita que impõe ainda uma nova repetição do mesmo adjectivo: impressionante. Directa, de uma simplicidade aparente mas com um ritmo avassalador, reforça ainda um pouco mais a intensidade que as circunstâncias já lhe conferem. E adensa também o mistério, pois a presença de David junto de Amanda - sentida ao longo de todo o seu percurso - ganha outra vida pelo facto de se assumir como um longo diálogo, onde todas as interrogações parecem querer encaminhar-se para uma derradeira revelação.
Breve no tamanho, mas imenso no conteúdo, eis, pois, mais uma daquelas leituras que reforçam a ideia de que um livro não precisa de ser grande para ser um grande livro. Intenso, complexo e impressionante em múltiplos aspectos, um livro para ler de uma assentada - e para guardar na memória bem depois de terminada a leitura. Recomendo.

Título: Distância de Segurança
Autora: Samanta Schweblin
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

E Se Eu Fosse Deus? (Fernando Correia)

E se eu fosse Deus? É essa a pergunta que serve de ponto de partida a uma primeira conversa - a que abrirá todas as portas para o lado desconhecido da cidade. Quem pergunta é Henrique, um sem-abrigo que quer mostrar ao narrador - já que ele quer descobrir - como são complexos e sinuosos os meandros das vidas de quem vive nas ruas. E, através de Henrique, abrem-se os olhos para a descoberta: a descoberta de que há um lado sombrio escondido na cidade e tantas vidas perdidas a precisar de ajuda. E, pelo caminho, há também a filosofia de perguntar qual é o Deus que tudo isso observa - e se um Deus diferente, mais humano, podia fazer com que as coisas fossem diferentes.
Embora seja identificado como sendo um romance, uma das primeiras impressões a emergir deste livro é que não se enquadra perfeitamente nessa categoria. Primeiro, porque, ao basear-se num percurso de procura de histórias reais, se centra mais na expressão desses testemunhos do que propriamente numa história de natureza ficcional. E, além disso, há uma forte componente de análise social e filosófica que distancia um pouco o texto da narrativa pura e simples, para o tornar mais numa exposição e análise de factos (difíceis).
Se isto retira impacto ao livro? De forma alguma. Os testemunhos - e as duras verdades que lhes estão subjacentes - realçam em si mesmos a enorme importância do tema e, além disso, ao unir todas estas histórias no percurso de Henrique, o autor confere à leitura uma envolvência maior. Sim, os pensamentos filosóficos e a oscilação entre múltiplos percursos tornam o ritmo da leitura um pouco mais pausado e mais distante. Mas a pertinência das questões? Está toda lá.
E, ainda que a história seja essencialmente um meio para um objectivo maior, há ainda assim rasgos de emotividade que conseguem ser, afinal, pura magia. Henrique, força motriz de tudo o resto, divindade terrestre que, à sua maneira, também tudo vê, pode funcionar como veículo para todas as outras histórias, mas tem também a sua. E essa - e particularmente a forma como tudo termina - acaba por aumentar em muito o impacto de todo o percurso. Percurso que, sendo afinal de duras verdades, caminha constantemente sobre a fina barreira entre a esperança e o desespero - barreira essa que é também, de certo modo, tocada no final.
Nem sempre fácil, mas sempre relevante, eis, pois, um livro que importa ler - pelas histórias e pela verdade escondida em todas elas. E por Henrique também, e a sua estranha forma de divindade que mostra a vida nos seus meandros mais sombrios.

Título: E Se Eu Fosse Deus?
Autor: Fernando Correia
Origem: Recebido para crítica

sábado, 11 de novembro de 2017

O Aniversário do Adrien (ZAG)

O Adrien faz anos, mas o pai, rígido e ausente, recusa-se a deixá-lo fazer uma festa. Ora, o seu melhor amigo não acha que isso seja justo e isso torna-o vulnerável à influência do Falcão-Traça. Surge assim o Bolhas, que quer livrar o mundo dos adultos... e de todos os que não quiserem divertir-se. E embora esta seja para o Adrien a oportunidade de ter a festa que sempre quis, mais cedo ou mais tarde, o Bolhas tem de ser travado. E só a Ladybug e o Gato Noir podem fazê-lo.
Sendo este já o quarto livro da série - e sendo a fórmula essencial em tudo semelhante à dos anteriores - a verdade é que não há nada de muito novo a dizer sobre este livro. O que há é um aspecto comum que nunca deixa de ser uma surpresa: é que, apesar de ser o quarto livro, e de seguir precisamente a mesma linha narrativa, a aventura nunca deixa de cativar. É fácil entrar no espírito da história, torcer pelas personagens, sentir os dilemas, mesmo tendo sempre presente a ideia de que, no fim, tudo acabará bem e, no geral, desfrutar de mais uma aventura descontraída do Gato Noir e da Ladybug. E, se tivermos em conta o público preferencial deste livro, esta capacidade de cativar sempre do início ao fim - e quer miúdos, quer graúdos - torna-se um aspecto particularmente notável.
Além disso, há uma pequena e interessante evolução de livro para livro. É que, à medida que se começam a conhecer melhor as personagens, a empatia também cresce um bocadinho mais. Neste caso, a vida familiar de Adrien faz com que lhe seja mais difícil tomar a decisão certa, o que, além de tornar a história mais empolgante, acaba por transmitir também uma mensagem positiva: a da importância de fazer a escolha certa, quando se está entre fazer o que está certo e o que é mais fácil.
E depois, claro, há os aspectos do costume: as imagens, cheias de cor e que complementam os diálogos na perfeição; a história sempre cheia de acção, que ganha outra vida nas imagens; e o divertido contraste entre um par de heróis sempre prontos para tudo - e as figuras por trás da máscara... não tão prontos assim.
Tudo somado dá a habitual mistura de acção e diversão, numa história cativante e descontraída capaz de surpreender jovens e adultos, fãs da série e quem nunca a viu. Cheio de cor, cheio de diversão e muito cativante, um bom livro para leitores de todas as idades.  

Título: O Aniversário do Adrien
Autores: ZAG
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

As Duas Vidas de Sofia Stern (Ronaldo Wrobel)

Nascida na Alemanha em 1919, Sofia Stern fugiu para o Brasil quando a guerra estava prestes a começar e nunca mais de lá saiu. Agora, a memória começa a falhar-lhe - ou a trazer-lhe fantasmas do passado - e, preocupado com ela, o neto decide investigar. Mas as respostas que encontra são tudo menos as esperas e um telefonema de uma juíza alemã leva-o a convencer a avó a voltar ao lugar onde cresceu. Lá, esperam-na a história de uma amiga perdida, os restos de de um amor inacabado... e uma verdade difícil de confessar.
Oscilando entre diferentes vozes e períodos temporais distintos, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela aura de mistério. Há todo um segredo escondido no passado de Sofia Stern e a forma como a história se desenrola, evocando diferentes momentos do seu percurso ao mesmo tempo que vai mantendo em suspenso as respostas para as grandes perguntas, mantém sempre viva a curiosidade em saber o que vem a seguir. Além disso, se Sofia é um enigma, é-o pelas acções e pelos segredos que guarda e, assim sendo, a relativa simplicidade com que tudo é contado acaba por criar um contraste interessante entre a simples fluidez da escrita e as complexidades imprevistas da história.
Claro que, embora esta seja uma história particular, são inevitáveis as considerações gerais, tendo em conta o período em que decorre. E também neste aspecto emerge o mesmo contraste: por um lado, tudo é contado com a máxima simplicidade, focando-se nas personagens principais e contextualizando à medida que vai sendo necessário. Por outro, é do próprio percurso que emergem as perguntas centrais, com a delicada posição de Sofia a enfatizar o tipo de atrocidades cometidas na época em que a história decorre.
Mas voltando ao mistério. Ou mistérios, pois, na verdade, há vários elos entrelaçados ao longo desta história: Hugo, Klara, a própria Sofia, a delicada situação do processo judicial. De tudo surgem perguntas e até mesmo de cada resposta dada. E é aqui que surgem alguns sentimentos ambíguos, pois, se a grande resposta é efectivamente dada - e dificilmente poderia sê-lo de forma mais intensa - ficam, ainda assim, várias questões em aberto, algumas delas deixando uma certa sensação de insatisfação, pois há na história quem merecesse um final um pouco diferente. Não deixa de fazer um certo sentido, ainda assim - ou não fosse aquele um tempo de perdidos e desaparecidos para sempre.
A impressão que fica é, portanto, a de uma história de aparente simplicidade, mas de relações complexas e grandes mistérios revelados. Cativante, intrigante e surpreendente, um livro que é, acima de tudo, a história das suas personagens, mas nunca esquecendo o contexto em que se movem. Gostei.

Autor: Ronaldo Wrobel
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Rapaz que Contava Histórias (Zana Fraillon)

Subhi não conhece outro mundo que não o delimitado pelas cercas do campo de refugiados. Ainda assim, traz consigo todos os sonhos do mundo e, embora vivendo com muito pouco, encontra nas histórias um sentido para a sua vida. Até que, um dia, o tamanho do mundo expande-se. Um buraco na vedação leva-o a conhecer Jimmie, que vive do outro lado do campo e tem um caderno deixado pela mãe que está cheio de histórias que ela não consegue ler. E, a cada nova história partilhada, cria-se uma proximidade mais forte que todas as cercas que o separam - e a certeza da liberdade ali tão perto.
Pese embora a relativa brevidade e a inocência que a voz de Subhi confere a todo o enredo, este não é propriamente um livro fácil de digerir. Primeiro, porque a impressão inicial é de alguma confusão. Confusão essa que faz todo o sentido, entenda-se, tendo em conta as circunstâncias do protagonista, mas que, ainda assim custa um bocadinho a assimilar, de início. E depois porque o tema em si, e a realidade que reflecte, é em si mesmo muito duro - tal como são os episódios que lhe dão forma.
Dito isto, dificilmente poderia ser um livro mais relevante. A fazer lembrar um pouco O Rapaz do Pijama às Riscas, na medida em que apresenta também dois mundos em colisão, este livro põe em destaque as verdades mais simples e mais cruéis de uma das questões mais relevantes do nosso tempo. As dificuldades da vida de Subhi no campo de refugiados e o caos em que por vezes se move tornam bem claros os obstáculos levantados à diferença. E a forma como o enredo evolui apenas põe mais em evidência estas barreiras, seja nas simples diferenças que separam Subhi e Jimmie, seja nos obstáculos externos que se contrapõem à amizade de ambos.
E assim surge um contraste impressionante: o da inocência do protagonista face à crueldade da situação. Contraste que se nota, desde logo, na voz que conta a história e que vai ganhando intensidade à medida que as dificuldades se sucedem, culminando num final de abalar a memória... e ficar de coração apertado.
Pertinente, actual, repleto de emoções fortes e com uma visão maravilhosa do valor da amizade mesmo nos tempos mais negros, pode não ser propriamente a mais leve das leituras. Mas uma coisa é certa: passada a confusão inicial, as qualidades que moldam uma leitura marcante estão todas bem presentes neste livro. Gostei.

Título: O Rapaz que Contava Histórias
Autora: Zana Fraillon
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Patrulha Pata: Todos Juntos! (Nickelodeon)

Nada é impossível para a Patrulha Pata. E talvez seja esse um dos motivos porque esta série é tão cativante para os mais novos. Daí que faça todo o sentido expandir o universo dos desenhos animados para outros meios - até porque reencontrar personagens de que se gosta num livro pode ser um belíssimo incentivo à leitura. E se houver algo de novo? Melhor ainda.
É precisamente isso que acontece neste livro, que junta a duas histórias simples e divertidas um belo conjunto de actividades para os mais novos. Labirintos, páginas para colorir, jogos de atenção e de procura das diferenças... há uma muito agradável diversidade de opções neste livro, tendo sempre como base os simpáticos cachorros da Patrulha Pata. E, assim sendo, a impressão que fica é a de uma boa forma de ocupar o tempo - e passar bons momentos de brincadeira - com os mais novos.
Além disso, ao ser, ao mesmo tempo, um livro de histórias e um conjunto de actividades, este livro acaba por juntar o melhor dos dois mundos, apelando à criatividade e à energia de fazer coisas novas ou simplesmente brincar e à (também criativa) tranquilidade de entrar no mundo de uma boa história. Em ambas as facetas, há muita cor e diversão à espera dos jovens leitores - daí que a imagem global seja precisamente a de um todo muito cativante.
Claro que será um livro mais interessante para os pequenos leitores que já conheçam bem a série de desenhos animados. Mas, caso não conheçam, é também possível ficar a conhecer as personagens a partir das breves apresentações e das duas histórias contidas neste livro. O que, mais uma vez, acaba por conjugar o melhor de dois mundos: para quem conhece, é um reencontro. Para os que ainda não conhecem, é uma descoberta.
Mistura de desafio e de entretenimento, a impressão que fica deste livro é, pois, a de uma boa oportunidade de estimular a curiosidade dos mais novos - ao mesmo tempo que se desperta o sempre valioso gosto pela leitura. Para fãs (e futuros fãs) da Patrulha Pata, um belo livro para acrescentar à colecção.

Título: Patrulha Pata: Todos Juntos!
Autor: Nickelodeon
Origem: Recebido para crítica

domingo, 5 de novembro de 2017

O Espírito da Ilha (Rodrigo Caiado)

Dividido entre regressar a um manuscrito que deixou de fazer sentido e enterrá-lo de vez, Pedro escolhe tomar a decisão através de um jogo de xadrez. Para tal, preparou-se com as jogadas de um grande mestre e decidiu que, caso vença a memória do seu falecido amigo, se livrará, de uma vez por todas, daquele manuscrito. Mas eis que, quando a vitória está próxima, o sono o domina, levando-o de volta às longas conversas com o amigo e às aventuras de um grupo de velhos conhecidos. Em tempos, eles descobriram uma ilha onde fenómenos estranhos acontecem. E essas histórias, que eles partilharam com Alberto e Alberto partilhou com Pedro, continuam a querer ser contadas - mesmo que Pedro não queira fazê-lo.
Muitíssimo descritivo e centrado, em grande medida, nas paisagens e fenómenos peculiares que caracterizam a ilha, este é um livro que exige o seu tempo para assimilar todos os pormenores. Primeiro, porque há uma profusão de elementos nos cenários que só gradualmente se tornam perceptíveis. E, depois, porque o próprio entendimento das personagens vai sendo moldado por uma sucessão de acontecimentos inexplicáveis, por vezes confusos, que fazem do cenário de toda esta narrativa um ambiente estranho e sobrenatural.
Assim sendo, custa um bocadinho entrar no ritmo da história, até porque, no início, tudo está envolto em mistério. Mas é também este mistério que mantém acesa a curiosidade, mesmo quando tudo parece demasiado estranho. E, à medida que se assimilam as peculiaridades da narrativa e se começa a entrar na senda do mistério, tudo se torna mais cativante, surgindo como que um crescendo de intensidade que culmina num final tão surpreendente quanto adequado.
Mas, se a história em si vive muito dos fenómenos estranhos e da beleza sobrenatural da paisagem, há, ainda assim, um outro aspecto a emergir de todo este percurso. É que, da oscilação entre crença e cepticismo de Pedro e Alberto e, depois, da percepção da estranha realidade das coisas, emerge também um tema relevante: o da destruição de locais que não são apenas belos, mas também fundamentais, em nome da simples ambição. O espírito da ilha - e a protecção da natureza nela contida - levantam uma questão muito pertinente: quando se sacrifica a natureza ao lucro, o que restará quando a última árvore tiver sido cortada?
Não é propriamente uma leitura compulsiva. O ritmo pausado e a vastidão de pormenores exigem tempo para que tudo se assimile devidamente. Ainda assim, a impressão que fica é a de um enredo cativante, com uma mensagem pertinente e uma aura de mistério e de magia que dá lugar a umas quantas boas surpresas. 
Tudo somado, a imagem que fica é muito simples: a de uma história que leva o seu tempo, mas que não deixa de proporcionar uma boa leitura.

Título: O Espírito da Ilha
Autor: Rodrigo Caiado
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Vidas Finais (Riley Sager)

Dez anos depois do massacre no Chalé dos Pinheiros, Quincy Carpenter, a única sobrevivente, julga ter, tanto quanto possível, uma vida normal. Mas a relativa estabilidade da sua vida está prestes a ser abalada. Primeiro, chega a notícia de que Lisa Milner, também ela única sobrevivente de um massacre e alguém que, em tempos, a tentou ajudar, terá cometido suicídio. E depois surge-lhe à porta a terceira Última Vítima. Samantha Boyd vem com a intenção de conhecer Quincy - e, acima de tudo, de descobrir se é verdade que ela não se lembra do que aconteceu. E, incapaz de compreender as verdadeiras intenções de Sam, mas guiada por um conhecimento de que há algo de errado a acontecer, Quincy dá por si a fazer o que nunca fez - e a voltar inexoravelmente ao passado que nunca desejou recordar...
Narrado em grande parte pela voz de Quincy - embora com as ocasionais interrupções para uma viagem ao passado esquecido - este é um livro que prende, em primeiro lugar, pela intensidade. Intensidade na forma como dá voz aos pensamentos da protagonista, intensidade no choque entre o passado tenebroso e as tentativas mais um menos falhadas de o superar e, acima de tudo, intensidade numa teia de acontecimentos em que cada revelação abre espaço a novas perguntas e todos os acontecimentos constituem uma escalada de emoção que culmina num final poderosíssimo.
Ora, o resultado de toda esta intensidade é... viciante, para dizer o mínimo. É absurdamente fácil entrar na cabeça de Quincy e acompanhar o seu percurso rumo ao passado. Sentir-lhe a relutância, a confusão, a perplexidade, a fúria. Compreender-lhe a vontade de agir ou a impotência face às acções dos que a rodeiam. E, à medida que as verdadeiras intenções - ou os segredos longamente guardados - vão surgindo à superfície, também os acontecimentos ganham um novo impacto. Junte-se a isto a fortíssima aura de mistério que tudo cobre - mistério sobre o que aconteceu no Chalé dos Pinheiros E sobre as verdadeiras intenções de Samantha - e o resultado é um livro quase impossível de largar.
Mas há mais. Há a capacidade de construir um enredo onde história e personagens escondem elementos complexos, mas onde há um instinto praticamente irresistível de descobrir o que acontece a seguir. Há também o contraste entre a Quincy vulnerável do passado e a Quincy do presente que, pese embora as circunstâncias, se tornou alguém diferente. E há ainda o delicado equilíbrio entre elementos profundamente sinistros, rasgos de relativa emotividade e até mesmo um pequeno toque de leveza (principalmente na fase inicial) a contrastar com os tais segredos sombrios enterrados (ou não) bem fundo no passado.
E as páginas voam com uma naturalidade tal que dá vontade de parar o mundo para continuar a ler mais um bocadinho. E, no fim, fica-se com a impressão de uma aventura impressionante e perigosa, cheia de segredos e de surpresas e de revelações. E com vontade de ler mais, mas também com a muito satisfatória sensação de que tudo termina exactamente como devia.
Intenso, explosivo, cheio de surpresas e de mistérios, mas, acima de tudo, com um olhar deveras impressionante sobre os tipos de monstros escondidos na mente de cada um, eis, pois, um livro a não perder para quem gosta de enredos sombrios e de histórias - e personagens - conturbadas. Brilhante em todos os aspectos, um livro que recomendo incondicionalmente. Leiam, sim?

Título: Vidas Finais
Autor: Riley Sager
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Divulgação: Novidade Topseller

Um homem enforcado, uma mulher brutalmente assassinada, um denominador comum.
Após ter descoberto uma verdade perturbadora e violenta sobre o seu passado, Olivia Rönning decide adiar o que poderia ser uma promissora carreira na Polícia. É então que o pai da sua amiga Sandra Sahlmann, um funcionário da alfândega em Estocolmo, aparece enforcado em casa.
À primeira vista, tudo aponta para suicídio. Olivia, porém, sente que algo não bate certo. Ela sabe que não se deve envolver, mas o caso torna-se demasiado pessoal.
Em simultâneo, uma mulher é brutalmente assassinada em Marselha, França. Trata-se de Samira Villon, uma ex-artista de circo cega que fazia filmes pornográficos para sobreviver. Sem saber o que o espera, Tom Stilton, um ex-inspector da Polícia com quem Olivia colaborou no passado, é arrastado para este caso.
Duas mortes aparentemente desligadas entre si juntam novamente Olivia Rönning e Tom Stilton numa investigação de contornos surpreendentes. Conseguirão eles resolver ambos os casos e impedir que mais pessoas tenham destinos trágicos?

Cilla e Rolf Börjlind são um casal de autores bestsellers suecos, cujas obras retratam uma  sociedade repleta de conflitos sociais.
Figuram entre os argumentistas mais aclamados da Suécia, sendo autores de 26 guiões de policiais e thrillers para cinema e televisão.
Maré Viva, o primeiro thriller dos autores que a Topseller lançou, recebeu arrebatados elogios por parte da crítica, tendo os seus direitos sido vendidos para 30 países.
A Topseller orgulha-se agora de dar a conhecer aos leitores portugueses A Terceira Voz, o thriller seguinte desta dupla maior da literatura escandinava.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Sou dos Anos 80 - Não Tenho Medo de Nada (Joana Emídio Marques)

Ah, os anos 80... O tempo em que tudo, desde os desenhos animados às brincadeiras de rua, a música, as séries, até as simples tropelias no recreio... tudo, mas mesmo tudo, falava de aventura. Um tempo em que nem tudo estava ao alcance e muito menos era fácil de obter - mas em que a liberdade se gritava aos quatro ventos e tudo era bem menos analisado. Crescer nos anos 80 podia implicar um ou outro braço partido de uma aventura mais perigosa - mas trazia também a certeza de não ter medo de nada (ou, pelo menos, não o admitir). E o que é certo é que as memórias desse tempo continuam a despertar nostalgia a quem o viveu.
Olhando para o mundo como o vemos hoje, e para todas as mudanças que ele trouxe, é difícil não pensar no passado com uma certa mistura de distância e nostalgia. Mas, para quem passou por experiências como a de tentar reanimar uma cassete com uma caneta ou de trautear ininterruptamente a música do genérico do Dartacão, esta viagem ao passado dificilmente poderia ser mais promissora. E, em jeito de contextualização, começo por dizer que eu cá sou do ano da graça de 1986, o que significa que vivi o suficiente desta era para lhe sentir a nostalgia, embora não conhecendo todas as referências citadas neste livro. O que me põe numa posição particularmente agradável: a de, por um lado, lembrar as coisas que, de alguma forma, marcaram a minha infância e, por outro, a de descobrir coisas que não cheguei a conhecer.
Ora, desta posição privilegiada, consigo ver o atractivo deste livro como tendo duas facetas. Por um lado, para quem viveu os anos 80, como uma fonte de nostalgia e de memórias agradáveis. Para quem não os viveu, como uma jornada de descoberta do passado - com todas as suas peculiaridades e bizarrias que foram precisamente o que o tornou tão único.
E isto leva-me ao que é, para mim, o grande ponto forte deste livro: o equilíbrio entre a experiência pessoal e as muitas referências que vão sendo faladas ao longo do livro. Mais que um enumerar de peculiaridades, este livro surge como um percurso pessoal, como que abrindo portas às memórias que a autora tem em comum com muitos outros filhos desta era. E este registo pessoal reforça a tal nostalgia, evocando os sentimentos que estas memórias provocam, sem nunca perder de vista o cuidado de de explicar os pontos marcantes a quem teve a infelicidade de nunca os conhecer.
Claro que o texto em si bastaria, com todas as suas referências conhecidas, para despertar essa tal estranha nostalgia. Mas há ainda todo um visual a complementar esta visão: o livro é, em si mesmo, um espelho das referências dos anos 80, com as imagens que acompanham o texto e os padrões cheios de cor de todo o livro a reforçar esse impacto na memória. E, com tanto para recordar e uma forma tão cativante para o fazer, difícil é não recuar no tempo, pelo menos por um bocadinho.
Eis, pois, um livro para recordar - ou para descobrir - uma era diferente de tudo o que veio depois. Um tempo de coisas mais simples, talvez, mas de que basta uma pequena memória para despertar todo um carrossel de nostalgia. Se são dos anos 80 - e também não têm medo de nada! - então este é o livro ideal para recordar. E se não são, mas querem saber como foi, então estas páginas são um belo ponto de partida. Recomendo.

Título: Sou dos Anos 80 - Não Tenho Medo de Nada
Autora: Joana Emídio Marques
Origem: Recebido para crítica