segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Socorro, o que Me Está a Acontecer!? (Annalisa Strada e Pedro Aires Pinto)

A adolescência é uma fase complicada, em que não é só o corpo que sofre mudanças. E, quando tudo muda, pode ser difícil lidar com todos os stresses e dificuldades que acompanham essas alterações. Este livro é um pequeno guia para percorrer esse caminho da forma mais calma e natural possível, explicando as mudanças - e a melhor forma de lidar com elas - de uma forma acessível e agradável de ler.
Sendo este um livro sobre as mudanças da adolescência, não é propriamente difícil identificar o público a que se destina. Mas há um aspecto particularmente interessante nesta leitura: é que, ao centrar-se em outros aspectos para além das mudanças físicas, é possível encontrar neste livro uns quantos conselhos - principalmente no que toca às relações e à auto-estima - que, transpostos para outro contexto, podem ser bastante úteis a leitores de todas as idades. Além disso, lembrar os dramas da adolescência na idade adulta traz também consigo umas quantas memórias - o que não deixa de ser também um efeito agradável.
Bem, mas voltando ao objectivo do livro, que é explicar aos adolescentes as mudanças que têm pela frente, um dos aspectos que mais se destaca é a clareza das explicações. Há um evidente esforço em tornar tudo o mais claro possível, realçando as coisas que são normais, ainda que não pareçam, como o facto de nem todas as experiências serem iguais. Além disso, e mais uma vez, ao não se cingir às mudanças físicas, é possível retirar deste livro uma percepção mais ampla das relações: consigo mesmo, com os amigos, com o primeiro amor. A mudança é muito mais que apenas hormonal e o cuidado de realçar isto faz com que a leitura seja muito mais esclarecedora.
E, além de esclarecedora, é simples e apelativa, não só pelas ilustrações divertidas que acompanham o texto, mas também pelo registo leve do próprio texto - do qual se destacam os pequenos episódios que, protagonizados por um muito interessante núcleo de personagens, exemplificam as questões mais relevantes. Tudo para tornar a leitura mais interessante, permitindo assim aprender e assimilar de uma forma mais envolvente.
Agradável e divertido, mas com uma perspectiva bastante esclarecedora das mudanças que ocorrem durante a adolescência (e que, no aspecto emocional, se podem prolongar muito para além dela), trata-se, portanto de um livro breve, mas muito útil, não só para adolescentes, mas também para quem queira relembrar como foi passar por essa fase. Muito interessante, em suma. 

Título: Socorro, o que Me Está a Acontecer!?
Autores: Annalisa Strada e Pedro Aires Pinto
Origem: Recebido para crítica

domingo, 20 de agosto de 2017

Do Berço ao Trono (Elizabete Agostinho)

A sua eleição como papa marcou o início de grandes mudanças nas normas e protocolos e chamou novamente para a igreja muitas atenções que se tinham desviado. Mas a história da sua vida não começou nesse dia e, no percurso de Jorge Mario Bergoglio antes de se tornar Francisco, estão bem presentes as marcas que moldariam o seu caminho enquanto papa. É esta a história que a autora aqui percorre, desde a infância à descoberta da vocação e ao longo e marcante percurso que se viria a seguir. 
Ainda que o mais importante de um livro seja sempre o conteúdo, e este não seja excepção, uma das primeiras coisas a chamar a atenção para esta breve biografia é o aspecto visual. Trata-se de um livro bonito, em que o dourado das páginas lhe confere uma certa individualidade, ao mesmo tempo que as abundantes fotografias complementam o texto com um registo visual da história. E, por isso, basta folheá-lo para ficar com vontade de o ler - o que não pode deixar de ser um óptimo ponto de partida.
E, chamada a atenção para o objecto, passamos então ao conteúdo. Não é - nem parece que pretenda ser - uma biografia exaustiva, centrando-se essencialmente numa exposição simples e acessível dos elementos fundamentais. Traça um percurso bastante claro dos passos essenciais da vida do seu protagonista e expõe, em linhas gerais, os seus pontos de vista. E assim, permite conhecer melhor o homem e as ideias, sem grandes divagações, mas reforçando os pontos fundamentais do seu percurso.
Claro que isto pode ser visto de duas formas: por um lado, a leitura é, de longe, mais cativante do que se se tratasse de uma daquelas biografias longas e muitíssimo detalhadas. Por outro, há aspectos, principalmente de contexto, em que fica uma certa curiosidade insatisfeita, já que, só sobre a questão das mudanças de regime na Argentina, haveria certamente muito mais a dizer. Ainda assim, não é esse o foco do livro e, ainda que fique a tal vontade de saber mais, todos os traços essenciais do retrato que se pretende traçar estão bem presentes.
Retrato sucinto, mas preciso e esclarecedor, do papa que "continuou a ser Jorge", trata-se, em suma, de um livro breve, mas cativante e com uma construção muito bem pensada. Uma boa leitura, portanto.

Título: Do Berço ao Trono
Autora: Elizabete Agostinho
Origem: Recebido para crítica

sábado, 19 de agosto de 2017

Tempo de Dizer Adeus (S.D. Robertson)

William Curtis prometeu à filha que nunca a abandonaria, mas o acidente que lhe tira a vida demasiado cedo fez com que essa promessa se tornasse impossível de cumprir. Agora, Will vê-se morto e perante uma decisão inevitável: passar para o outro lado ou manter-se presente enquanto espírito para acompanhar a filha, como sempre prometeu que faria. O problema é que a decisão não é assim tão simples: não só o tempo que tem para decidir é limitado como as suas tentativas de comunicar com a filha podem influenciar o futuro de forma irreversível. E, invisível aos olhos de todos excepto os da filha, Will pergunta-se de que forma poderá tomar a decisão certa - principalmente quando os segredos da família começam a vir à superfície.
História de morte e de vida para além da morte, este é um livro que tem como principal ponto forte a capacidade de emocionar. Por um lado, o dilema de Will perante a promessa que fez à filha de seis anos, desperta, desde logo, uma certa empatia para com a sua situação. E depois, à medida que novas revelações vão surgindo e a vida familiar dos que ficaram começa a moldar-se às circunstâncias, também as outras personagens - e as dificuldades que têm de atravessar - começam a despertar simpatia e compreensão. 
Isto não quer dizer que todas as personagens sejam igualmente empáticas. Sendo certo que há nesta história várias figuras marcantes, com particular destaque para a pequena Ella, também as há que não chegam a revelar verdadeiramente os seus melhores traços, como é o caso de Hardy. Neste caso, fica inclusive uma certa sensação de curiosidade insatisfeita, pois teria sido interessante ver o que foi que o transformou na figura que é. Ainda assim, há um aspecto que sobressai na construção das personagens, e que contribui em muito para o impacto final. Mais ou menos carismáticas, mais ou menos vulneráveis, há uma coisa que todas as personagens têm em comum: nenhuma delas é perfeita. E isso faz com que seja possível assimilar os progressos da sua jornada, os momentos de colapso e de crescimento, de revolta e de compreensão. Torna-as humanas, portanto. Torna-as reais.
Quanto ao enredo propriamente dito, sobressaem dois aspectos: primeiro, a capacidade de construir uma história sobre a vida após a morte sem se cingir demasiado aos dogmas de um sistema específico de crenças; e depois, o potencial de evolução das personagens ao longo do enredo. Todo o percurso de Will e da família é uma história de perdas e de superação, em graus e contextos diferentes. E, a cada nova descoberta, a cada novo passo rumo à decisão (de Will e não só), há algum tipo de crescimento a acontecer. Will aprende a aceitar o que lhe aconteceu e a ver para lá de si mesmo para fazer a melhor escolha. E esse percurso estende-se também à sua família, que descobre a união para lá da perda e dos segredos.
A impressão que fica é, portanto, a de uma história terna, cativante e inocente quanto baste. Uma história de amor para além da morte e uma lembrança de que, na vida, as coisas mais importantes nem sempre são as que julgamos. Gostei.

Título: Tempo de Dizer Adeus
Autor: S.D. Robertson
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Presença

Neil Gaiman
Colecção: Via Láctea nº 139
Tema: Infantis-Juvenis
Título Original: Norse Mythology
Tradução: Maria João Ferro
ISBN: 978-972-23-6071-5 
Páginas: 248

As lendas nórdicas sempre tiveram uma forte influência no universo de Neil Gaiman. Neste novo livro, o multipremiado autor regressou às suas fontes para criar quinze contos relacionados com a grande saga dos deuses escandinavos, que inspiraram a sua obra-prima Deuses Americanos. Da génese do mundo ao crepúsculo dos deuses e à era dos homens, eles readquirem vida: Odin, o mais poderoso dos deuses, sábio corajoso e astuto; Thor, seu filho, incrivelmente forte mas turbulento; Loki, filho de um gigante e irmão de Odin, ardiloso e manipulador... Orgulhosas, impulsivas e arrebatadoras, estas divindades míticas transmitem-nos a sua apaixonante - e muito humana - história.

Neil Gaiman começou por trabalhar como jornalista freelancer até que em 1987 se tornou conhecido ao criar com Dave McKean a novela gráfica Violent Cases. Devido ao excelente acolhimento da obra, abandonou o jornalismo e em 1988 iniciou a publicação da série Sandman, que o transformou num autor de culto. A sua carreira tem sido extraordinariamente prolífica e a sua arte tem obtido um justo reconhecimento, quer do público quer da crítica, o que lhe valeu diversos prémios prestigiados. Alguns dos seus livros foram adaptados a grande ecrã com grande sucesso, como é o caso de Coraline e a Porta Secreta e Stardust - O Mistério da Estrela Cadente, ambos já publicados pela Presença. Neverwhere - Na Terra do Nada, uma brilhante fantasia urbana, foi inspirada numa minissérie que escreveu para a BBC. Mitologia Nórdica tem direitos de tradução vendidos para cerca de 30 países.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Respire (Rebecca Dennis)

Respirar é algo natural - não precisamos de pensar para o fazer. Mas a forma como respiramos pode ter impacto nas nossas emoções. Quando estamos nervosos, a respiração acelera. Respiramos fundo para nos acalmarmos. Às vezes, suspiramos quando nos sentimos tristes. Mas será que respiramos da forma certa? O que este livro propõe é um olhar sobre a forma como a respiração influencia as emoções e permite ultrapassar marcas passadas e preocupações com o futuro - moldando o agora ao ritmo de uma respiração mais consciente. 
Se tivermos em conta a premissa deste livro, uma das primeiras impressões a surgir é, quase inevitavelmente, de uma certa estranheza. Afinal, respirar é algo que se faz sem pensar nisso - não tem nada de assim tão transcendente. Mas, à medida que se avança na leitura, e as ideias da autora se tornam mais claras, é possível acompanhar o desenvolvimento de um método com bastante potencial. Não, não resolve todos os problemas - nem parece que seja esse o objectivo. Na verdade, nem sequer é um método de passos estritos e definidos, mas antes um conjunto de possibilidades a cada leitor se pode ajustar. E é isso que torna este livro tão interessante, pois não exige nem uma orientação estrita, nem uma fé cega, deixando ao leitor a possibilidade de experimentar e de se ajustar ao que de bom pode retirar das orientações da autora.
Também bastante interessante neste livro é a forma como a autora complementa a exposição das suas ideias com partes da sua história pessoal, histórias de alguns dos seus clientes, citações de outros autores e vários exercícios de respiração. Os exemplos práticos permitem assimilar melhor as possibilidades que a autora apresenta ao expor as suas teorias. As referências a outros autores abrem caminho a quem quiser aprofundar conhecimentos sobre o tema. E a ampla variedade de exercícios permite que cada leitor retire do livro aquilo que mais se lhe adequar.
Claro que não se trata de nenhum método milagroso - mais uma vez, nem parece ser esse o objectivo. E, ao ler as histórias de vários dos clientes da autora, fica uma certa curiosidade em saber mais ao pormenor de que forma é que as sessões influenciaram a forma como as várias pessoas lidaram com os seus diferentes problemas. Ainda assim, a impressão que fica é, no essencial, positiva, já que, pelo menos no que toca à calma, é fácil reconhecer de que modo os exercícios apresentados podem ser úteis.
A imagem que fica é, portanto, a de um livro interessante, com vários exercícios úteis e um conjunto de boas ideias e perspectivas sobre a forma como a respiração exerce influência sobre a saúde e o bem-estar. Gostei. 

Título: Respire
Autora: Rebecca Dennis
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A Mulher Desaparecida (Sara Blædel)

Agora que o passado de Louise finalmente ficou para trás, ela e Eik parecem estar a construir uma relação mais sólida. Mas tudo muda no dia em que, se dar qualquer explicação, Eik desaparece subitamente. Pouco depois, descobrem que foi detido em Inglaterra enquanto tentava invadir a casa onde uma mulher foi assassinada. Tudo começa a fazer sentido quando descobrem que a morta é Sofie Parker, a namorada que Eik deu como desaparecida dezoito anos antes. Mas saber quem ela é não desvenda quem a matou. E, se o comportamento de Eik é, no mínimo, suspeito, então cabe a Louise descobrir a verdade.
Centrado essencialmente num caso com ligações ao passado, mas não se cingindo a elas, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, por ser possivelmente o mais leve dos três. E isto é inesperado, em primeiro lugar, pelas circunstâncias misteriosas do passado, já que o desaparecimento de Sofie deixou marcas poderosas em Eik, mas também pelo tema complexo que emerge das pistas que vão sendo descobertas. Ainda que seja o caso o cerne da narrativa, há grandes ligações à vida pessoal das personagens e, assim sendo, surpreende, até certo ponto, a forma como estes laços vão ficando para segundo plano.
Ora, isto deixa alguns sentimentos ambíguos, pois, se as descobertas iniciais abalam a relação de Louise e Eik, a forma rápida como tudo se resolve deixa uma certa curiosidade insatisfeita. Teria sido interessante ver um pouco mais da forma como Louise lida com as questões privadas, até porque a situação com Eik não é o único problema pessoal que Louise tem nas mãos. Ainda assim, tendo em conta a evolução do caso, faz algum sentido que estes aspectos tenham ficado um pouco para trás.
O que me leva ao grande ponto forte deste livro: as motivações do caso. Há na história de Sofie Parker, no passado e nas acções a que este passado a motivou, uma teia interessantíssima de questões pertinentes, não só quanto à viabilidade das suas escolhas como no que diz respeito às questões éticas subjacentes. E a forma como a autora aborda o tema, tendo o cuidado de realçar, ao longo do caso, pontos de vista divergentes, faz com que tudo pareça bastante mais realista - ainda que fiquem algumas perguntas sem resposta.
E depois há a escrita, claro, e a forma como a autora consegue entrelaçar pequenos fragmentos do passado com o enredo do presente, de modo a apresentar uma perspectiva mais clara das motivações de Sofie. Estão nesses pequenos momentos alguns dos episódios mais marcantes de todo o enredo e vê-los de uma perspectiva diferente torna o impacto da história um pouco maior.
Tudo somado, fica a imagem de uma narrativa inesperadamente leve e centrada principalmente no caso a investigar, mas em que a complexidade do tema e os vislumbres de uma vida pessoal para lá do mistério tornam tudo mais intenso e intrigante. Mais uma boa leitura, portanto, numa série que vale a pena descobrir.

Título: A Mulher Desaparecida
Autora: Sara Blædel
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Serpente do Essex (Sarah Perry)

Cora Seaborne acaba de perder o marido e o que sente em nada corresponde ao que as convenções ditam que devia sentir. Pela primeira vez, sente-se livre de viver como julga melhor e de explorar a sua paixão pelo passado. Quando ouve pela primeira vez a história da serpente do Essex, um monstro que, aparentemente, deambula pelo estuário do Blackwater, Cora sabe que tem de investigar, pois julga ter ali a sua oportunidade de encontrar um fóssil vivo e conquistar o seu lugar na história. O que não sabe é que o que a espera em Aldwinter é algo de diferente. Aí, encontrará a mais invulgar das amizades na figura do reverendo William Ransome. E esse afecto abrirá caminho a todas as respostas - e a mudanças que nenhum deles sabe explicar.
Ainda que Cora Seaborne pareça ser o ponto para que todas as linhas do enredo convergem, uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro é que, mais que uma única protagonista, há um conjunto de personagens igualmente relevantes que, no seu conjunto, dão forma a uma narrativa complexa e sempre intrigante. Até a própria serpente do Essex pode ser vista como uma personagem, tal é a forma como influencia o comportamento de todos os que conhecem a história. E isto, este núcleo de figuras centrais cujas relações e interdependências dão forma a um percurso cheio de estranhas descobertas, faz parte do que torna todo este enredo tão fascinante.
Claro que, tendo isto em vista, a narrativa flui a um ritmo relativamente pausado, não só pela necessidade de acompanhar várias personagens, mas também devido ao próprio ritmo do mistério. A influência das coisas e das pessoas é algo que se manifesta gradualmente e conhecer as personagens e o que as move é crucial para a compreensão desta influência. Mas, há algo mais nessa relativa lentidão, algo que parece reforçar a percepção do ambiente. É que a vida em Aldwinter, em oposição, por exemplo, às experiências de algumas das personagens em Londres, é também ela de relativa tranquilidade - excepto no que toca à serpente, claro. E, assim sendo, este ritmo brando da passagem do tempo acaba por fazer todo o sentido, pois é esse o ritmo a que as personagens se movem.
Mas há ainda um outro aspecto que sobressai e a forma como a autora constrói a narrativa realça bem esta característica. Mais do que a história de uma misteriosa serpente, este livro fala, acima de tudo, de pessoas. Pessoas que amam e odeiam, que alimentam esperanças e sofrem com os seus medos, que crêem ou questionam e que, perante os mistérios da vida, se assumem também como os seus próprios mistérios. E assim, ninguém se revela por completo a não ser na complexa interacção com os outros. Interacção essa que é a verdadeira magia num enredo todo ele cheio de mistérios.
Da soma de tudo isto, resulta um livro pausado, mas sempre cativante, em que os verdadeiros mistérios não vêm de uma serpente monstruosa, mas das almas que o medo e a esperança parecem moldar a cada nova descoberta. Complexo, marcante e com uma escrita belíssima, um livro memorável de uma autora a seguir.

Título: A Serpente do Essex
Autora: Sarah Perry
Origem: Recebido para crítica