terça-feira, 21 de novembro de 2017

The Living Memory (Tim Byrne e Emma Dyer)

Io tem um dom. A sua extraordinária memória permite-lhe reviver e reajustar tudo o que alguma vez viu, sentiu ou viveu. Mas um dia as suas explorações vão um pouco longe demais e Io dá por si expulsa da sua vida real e nas memórias de outra pessoa. Talia é a assistente de um mesmerista na Londres vitoriana e não parece ficar nada satisfeita com a sua hóspede – ou delírio – inesperado. Mas ambas partilham o mesmo dom e Talia pode fazer maravilhas com a sua memória. À medida que começam a descobrir o que têm em comum, o dom de Talia atrai atenções inesperadas. E não tarda a que Talia e Io se vejam envolvidas no meio de um duelo entre ciência e magia – ou na visão que alguém tem sobre ambas. Apanhadas nos meandros de duas organizações diferentes, Talia e Io têm de decidir o que querem fazer das suas vidas. Caso contrário, ficarão presas para sempre.
Narrado pela voz de Io, mas com um vasto cenário de tempos e imaginação, uma das primeiras coisas a impressionar neste livro é a extraordinária visão das memórias que evoca. Da memória enquanto algo fluido e mutável, mas também parte fundamental da alma. E isto é algo… bem, memorável – principalmente por dar vida a todo um novo mundo, com todos os seus perigos e maravilhas. O dom de Io é algo de especial e basta para intrigar desde o início. Mas, a partir do momento em que as suas capacidades se expandem para um cenário mais vasto, tudo se torna ainda mais impressionante. E Talia… bem, enquanto homóloga de Io, é óbvio que têm muito em comum. Mas também têm as suas próprias características e personalidades, e isso torna a história muito mais empolgante.
Io e Talia são a alma desta história, principalmente pois grande parte acontece dentro das suas memórias. Mas o próprio cenário é bastante impressionante, em primeiro lugar por seguir duas épocas muito diferentes, mas principalmente devido à intensidade do enredo. Mandeville, os Memento Mori, os Imortais… há tanto de fascinante nesta história que é difícil deixá-la para trás depois de terminada a leitura.
E há também uma mensagem muito positiva. Muitos dos problemas de Io – e de Talia também – vêm de terem escolhido fazer o que delas se espera ou o que pensam que deixará os outros felizes em vez do que realmente querem fazer. E o seu caminho é tanto de perigos e aventuras como de descoberta do que realmente querem. A vida é feita de escolhas – e as delas trazem consigo uma evolução impressionante.
Intensamente urdido, muitíssimo bem escrito e com uma história tão poderosa como as muito impressionantes personagens que nela vivem, a soma de tudo isto dá uma leitura muito intensa e fascinante, uma grande história sobre os labirintos da memória e a necessidade de fazer a diferença no presente e um livro que, sem dúvida alguma, recomendo.

Título: The Living Memory
Autor: Tim Byrne e Emma Dyer
Origem: Recebido para crítica

domingo, 19 de novembro de 2017

Através dos Meus Pequenos Olhos (Emilio Ortiz)

Cross é um jovem cão-guia pronto a conhecer o mundo no desempenho das suas funções. Mario é um jovem invisual que aguarda com expectativa a chegada do seu novo companheiro e guia. E juntos têm toda uma vida pela frente. Inseparáveis não só pela necessidade, mas principalmente pelo afecto crescente, Mario e Cross descobrem o mundo de uma forma diferente - com a confiança que os une a tornar mais fáceis de superar todas as barreiras. Mas o mundo nem sempre vê com bondade as diferenças dos outros - e também para superar isto toda a ajuda será necessária.
Um dos aspectos mais cativantes deste livro, e também parte da sua beleza, é o facto de a história ser contada por Cross. Cativante, porque Cross surge-nos como um protagonista divertido e descontraído, com o qual é fácil acompanhar os bons momentos e os maus e vê-lo crescer (bem como a Mario) de uma forma sempre surpreendente. Mas, acima de tudo, relevante. Porquê? Porque ao ver o mundo pelos olhos inocentes de Cross, tudo ganha um novo impacto - e isto aplica-se tanto à bondade das pessoas como à maldade. O resultado é que tudo ganha um maior impacto: o afecto e a alegria, mas também os obstáculos, cuja verdadeira importância só é verdadeiramente entendida por quem vive com eles.
A relevância é, portanto, indiscutível. Mas também há magia a acontecer nesta história: magia na pura simplicidade dos afectos, na relação cada vez mais forte entre Mario e Cross, nos muitos momentos divertidos ou empolgantes ou pura e simplesmente enternecedores que marcam o caminho dos protagonistas. E na verdade subjacente a tudo isto - no facto de, embora na vida real os cães não possam falar (pelo menos com palavras), aquilo que Cross vai contando ser absolutamente realista.
E isto leva-me ao ponto que me deixou sentimentos ambíguos. É certo que um cão-guia é muito mais do que um simples animal de estimação e, com o passar dos anos e o inevitável envelhecimento, torna-se necessário encontrar outro tipo de soluções. Mas tudo neste livro se encaminha para uma grande escolha e, dadas as opções apresentadas, não é propriamente fácil entender essa escolha. E, claro, por um lado, faz sentido. Mas, emocionalmente falando, ficam os tais sentimentos ambíguos e a ideia de que talvez pudesse ser de outra maneira.
Não que isto retire impacto a tudo o resto. Há em todo o percurso uma bonita jornada de crescimento - tanto para Mario como para Cross - e vários momentos marcantes ao longo do caminho. E há verdades difíceis, também, e uma inegável relevância que só sai reforçada pela simplicidade de uma escrita que parece ajustar-se na perfeição ao seu narrador. Nem tudo é perfeito? Não. Na vida, também não é. E, tal como na vida, também aqui há escolhas difíceis, nem sempre fáceis de entender - mas feitas tendo sempre em vista o melhor.
A imagem que fica é, portanto, a de uma história bonita, cativante e acima de tudo relevante. Uma chamada de atenção para os obstáculos com que os invisuais têm de lidar sob a forma de um romance terno, realista e com muitas boas surpresas pelo caminho. Gostei.

Autor: Emilio Ortiz
Origem: Recebido para crítica

sábado, 18 de novembro de 2017

Cartas a Um Jovem Escritor (Colum McCann)

Escrever um livro. Há quem ache que parece fácil. Há quem tente com todas as forças, mas não consiga suportar o resultado. Há os que fracassam, os que desistem, os que persistem, os que alcançam o sucesso. Mas há regras? Não propriamente. E muito menos se se pretender que a regra seja mais ou menos universal. Ainda assim, pode ser útil ver outra perspectiva. E se, em vez de regras, procurarmos conselhos... bem, a utilidade aí pode ser quase ilimitada. É isso precisamente que este livro apresenta: uma muito empolgante mistura de conselhos práticos e de pura e simples inspiração, sem nunca fazer com que as coisas pareçam mais fáceis do que realmente são, mas complementando a enumeração das dificuldades com várias orientações úteis e precisamente a dose certa de motivação. O resultado? Bem, muitas ideias relevantes... e uma mistura de nostalgia e de vontade irresistível de escrever. 
Comecemos pelo aspecto (aparentemente) mais simples: a forma. Basta o título para evocar Rilke e as suas Cartas a Um Jovem Poeta e é, na verdade, bastante fácil identificar pontos comuns como a simples (mas verdadeira) ideia de que ninguém pode apontar um único e derradeiro caminho certo. Ainda assim, é este ponto de partida que torna tudo tão interessante, pois, através dos seus curtos mas elucidativos capítulos, a autor conduz o seu jovem interlocutor através das múltiplas facetas da escrita (e da publicação também) sem nunca perder de vista que o que resulta para uns não resulta para outros. Ah, e mais importante, claro: o que realmente importa é o que está na página.
Ora, não havendo regras universais, será de pensar que a utilidade dos conselhos práticos é algo relativa. Talvez seja. Ainda assim, é sempre pertinente conhecer a visão e o percurso de alguém mais experiente. Mas, mais que os conselhos práticos - e sem lhes retirar a pertinência - há ainda um outro aspecto, e é esse que torna a leitura memorável: o lado inspirador destas pequenas (ou não tão pequenas) cartas. O retrato que o autor traça da escrita - penosa, angustiante, apaixonante, demanda de descoberta, missão através das palavras, apelo entre o silêncio, irresistível, irrevogável, essencial à sobrevivência - é algo com que muitos jovens (e menos jovens) escritores, aspirantes a escritores ou simples apaixonados pela literatura poderão reconhecer como próximo do que sentem. E há nesse ténue fio entre a estranheza e a familiaridade algo de tão profundo e de tão inspirador que - escreva-se ou não, queira-se ou não escrever - fica-se com a sensação de estar agora mais perto da palavra escrita.
E depois há citações. Não, não me refiro apenas às que abrem cada capítulo e que, ao acrescentarem a perspectiva de outros autores, tornam tudo ainda um pouco mais memorável. É que ao longo das próprias "cartas" há várias frases poderosas que, além de reforçarem o impacto da ideia, realçam em si mesmo a tal beleza etérea da literatura - que parece ser, afinal, a raiz de tudo o resto.
Conselhos e inspiração. É isto que o livro promete - e é precisamente o que apresenta. Cativante e esclarecedor, consegue, ao mesmo tempo que percorre os aspectos práticos da escrita, realçar o que nela existe que motiva e que apaixona, despertando (de novo) a vontade de voltar à página em branco e dar-lhe voz. Não há regras universais? Não, não há. Mas há formas de olhar a escrita que incitam a descobrir nela uma nova faceta. E essas estão bem presentes neste muito relevante livro. Recomendo.

Título: Cartas a Um Jovem Escritor
Autor: Colum McCann
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Último Beijo da Mamba Verde (Cesário Borga)

É na cantina de Salima que todos se encontram - militares, pides, estrangeiros, prostitutas - e é por lá que, entre festejos e bebidas, a guerra vai passando, deixando as suas marcas numas quantas vidas perdidas, mas, ainda assim, relativamente remota. Mas os tempos têm-se tornado mais perigosos e as relações cada vez mais complexas. Tudo começa com a relação proibida entre um rodesiano e uma prostituta negra. Aparentemente inocente, é mais que o suficiente para acicatar ódios latentes e avivar o fogo de uma guerra cada vez mais próxima. E, entre a paz aparente da cantina e os ataques cada vez mais perigosos, Salima dá por si apanhado no meio do caos, principalmente quando, após um ferimento, é levado para um hospital e aí encontra a mulher que lhe despertará o mais forte amor - e o mais fundo desejo de vingança.
Narrado pela voz de Salima e centrado, acima de tudo, na sua perspectiva do que o rodeia, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pela capacidade de exprimir com toda a naturalidade não só as impressões e sentimentos do protagonista, mas o estado de espírito geral daqueles que o rodeiam. Enquanto cantineiro, Salima convive com todo o tipo de gente e, talvez por isso, as suas impressões são vastíssimas. Além disso, a própria estrutura do romance propicia esta visão mais ampla, pois começa a partir de uma teia de vários elementos, para se ir depois centrando gradualmente num ponto focal mais nítido, mas, em certa medida, formado por tudo o que vem de trás.
Também muitíssimo marcante neste livro é a forma como, da humanidade de algumas personagens e da crueldade de outras, consegue sobressair não só uma história repleta de emoções fortes, mas também um romance cheio de temas pertinentes. As atrocidades da guerra, o racismo, o preconceito que move à crueldade gratuita e a influência dos poderosos que faz com que a alguns tudo seja permitido são apenas alguns dos muito importantes aspectos que emergem da leitura deste livro. E também eles emergem com naturalidade, por actos mais do que por palavras, o que lhes realça, naturalmente, o impacto que têm nas personagens e no leitor.
E depois, claro, há o impacto dos momentos propriamente ditos e a forma como, do que parece ser uma interacção aparentemente tranquila, emergem as raízes de uma crueldade maior. Há, nos momentos de alegria, uma estranha leveza que apenas potencia o impacto dos momentos cruéis. E, à medida que a narrativa se vai tornando mais sombria, como a vida do próprio protagonista, este contraste torna-se ainda mais evidente, reforçando a impressão de que tudo pode perder-se num só momento.
A imagem que fica é fascinante: por um lado, o percurso cada vez mais avassalador de uma guerra que se aproxima inexoravelmente; por outro, uma jornada emocional da descontracção à devastação. E, no fim, é isso mesmo que impressiona neste livro: a capacidade de nos fazer percorrer um caminho tão complexo como o das personagens e do contexto em que se movem. No fim, é isso que fica na memória. E a soma de tudo é algo de muito bom.

Título: O Último Beijo da Mamba Verde
Autor: Cesário Borga
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Divulgação: Novidade Presença

Nicola Yoon
Colecção: Ficção Juvenil n.º 26
Título Original: The Sun is also a star
Tradução: Isabel Maria Pettermann Frausto
ISBN: 978-972-23-6128-6 
Páginas: 352

A história de uma rapariga, um rapaz e o universo.
Natasha: Sou uma rapariga que acredita na ciência e nos factos. Não acredito no destino. Ou nos sonhos que nunca se concretizam. Não sou de todo aquele tipo de rapariga que encontra um rapaz simpático numa rua nova-iorquina cheia de gente e se apaixona por ele. Não quando a minha família está a doze horas de ser deportada para a Jamaica. Apaixonar-me por ele não será a minha história.
Daniel: Sou o bom filho, o bom estudante, correspondendo sempre às elevadas expectativas dos meus pais . Nunca fui o poeta. Ou o sonhador. Mas quando a vejo, esqueço tudo isso. Algo em Natasha faz -me pensar que o destino nos reserva, a ambos, alguma coisa muito mais extraordinária.
O universo: Cada momento das nossas vidas conduziu-nos a este momento único. Há um milhão de futuros perante nós. Qual deles se tornará realidade?

Nicola Yoon é autora de Tudo, Tudo... e Nós, o romance bestseller # 1 do jornal New York Times, que vendeu mais de um milhão de exemplares. Cresceu na Jamaica e em Brooklyn e vive atualmente em Los Angeles com a família. É uma romântica irremediável, acreditando firmemente que podemos apaixonar-nos num momento que poderá durar para sempre. Os direitos de O Sol Também é uma Estrela foram adquiridos por editores de mais de 30 países.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Distância de Segurança (Samanta Schweblin)

Às portas da morte e com a mente turvada, Amanda não tem senão um emaranhado de memórias confusas - e um estranho companheiro para a ajudar a recordar. Ao seu lado, David, uma criança, incita-a a procurar respostas com uma série de perguntas tão urgentes quanto misteriosas, guiando-a através de um passado também ele turvo, mas onde parece estar escondida a única verdade que importa. E as memórias vêm, como fragmentos atados - memórias de umas férias onde se fez uma nova amizade, de uma amizade que trouxe consigo um segredo sombrio e de uma partida adiada que abriu portas a um veneno sem nome. Presente sempre, a distância de segurança que insiste em unir uma mãe à sua filha, mesmo quando tudo indica que, na verdade, já é tarde demais...
Há algo de estranhamente fascinante na forma em como, de uma história tão breve, se consegue fazer emergir uma tão vasta complexidade. São pouco mais de cem páginas e, no entanto, há todo um mundo a descobrir no desfiar das memórias de Amanda. E um mundo de mistérios, entenda-se, pois, se o que move a protagonista é o simples e insuperável amor protector de uma mãe, o estranho cenário onde tudo parece acontecer desperta grandes e pertinentes perguntas. Afinal, a doença de Amanda, o misterioso passado de David, as estranhas decisões de Carla... em tudo isto há grandes enigmas - e nenhuma verdade absoluta (como não as há, de resto).
E, claro, tendo isto em conta, é inevitável a sensação de que ficam perguntas sem resposta. Mas também particularmente impressionante é que o facto de tudo isso ficar sem resposta só acrescenta à intensidade da narrativa, pois, sendo tudo tão estranhamente peculiar, faz apenas sentido que também as grandes tragédias pessoais das personagens sejam deixadas entre a explicação possível e a verdade maior que, embora presente, fica encoberta.
Mas há ainda a escrita, e uma escrita que impõe ainda uma nova repetição do mesmo adjectivo: impressionante. Directa, de uma simplicidade aparente mas com um ritmo avassalador, reforça ainda um pouco mais a intensidade que as circunstâncias já lhe conferem. E adensa também o mistério, pois a presença de David junto de Amanda - sentida ao longo de todo o seu percurso - ganha outra vida pelo facto de se assumir como um longo diálogo, onde todas as interrogações parecem querer encaminhar-se para uma derradeira revelação.
Breve no tamanho, mas imenso no conteúdo, eis, pois, mais uma daquelas leituras que reforçam a ideia de que um livro não precisa de ser grande para ser um grande livro. Intenso, complexo e impressionante em múltiplos aspectos, um livro para ler de uma assentada - e para guardar na memória bem depois de terminada a leitura. Recomendo.

Título: Distância de Segurança
Autora: Samanta Schweblin
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

E Se Eu Fosse Deus? (Fernando Correia)

E se eu fosse Deus? É essa a pergunta que serve de ponto de partida a uma primeira conversa - a que abrirá todas as portas para o lado desconhecido da cidade. Quem pergunta é Henrique, um sem-abrigo que quer mostrar ao narrador - já que ele quer descobrir - como são complexos e sinuosos os meandros das vidas de quem vive nas ruas. E, através de Henrique, abrem-se os olhos para a descoberta: a descoberta de que há um lado sombrio escondido na cidade e tantas vidas perdidas a precisar de ajuda. E, pelo caminho, há também a filosofia de perguntar qual é o Deus que tudo isso observa - e se um Deus diferente, mais humano, podia fazer com que as coisas fossem diferentes.
Embora seja identificado como sendo um romance, uma das primeiras impressões a emergir deste livro é que não se enquadra perfeitamente nessa categoria. Primeiro, porque, ao basear-se num percurso de procura de histórias reais, se centra mais na expressão desses testemunhos do que propriamente numa história de natureza ficcional. E, além disso, há uma forte componente de análise social e filosófica que distancia um pouco o texto da narrativa pura e simples, para o tornar mais numa exposição e análise de factos (difíceis).
Se isto retira impacto ao livro? De forma alguma. Os testemunhos - e as duras verdades que lhes estão subjacentes - realçam em si mesmos a enorme importância do tema e, além disso, ao unir todas estas histórias no percurso de Henrique, o autor confere à leitura uma envolvência maior. Sim, os pensamentos filosóficos e a oscilação entre múltiplos percursos tornam o ritmo da leitura um pouco mais pausado e mais distante. Mas a pertinência das questões? Está toda lá.
E, ainda que a história seja essencialmente um meio para um objectivo maior, há ainda assim rasgos de emotividade que conseguem ser, afinal, pura magia. Henrique, força motriz de tudo o resto, divindade terrestre que, à sua maneira, também tudo vê, pode funcionar como veículo para todas as outras histórias, mas tem também a sua. E essa - e particularmente a forma como tudo termina - acaba por aumentar em muito o impacto de todo o percurso. Percurso que, sendo afinal de duras verdades, caminha constantemente sobre a fina barreira entre a esperança e o desespero - barreira essa que é também, de certo modo, tocada no final.
Nem sempre fácil, mas sempre relevante, eis, pois, um livro que importa ler - pelas histórias e pela verdade escondida em todas elas. E por Henrique também, e a sua estranha forma de divindade que mostra a vida nos seus meandros mais sombrios.

Título: E Se Eu Fosse Deus?
Autor: Fernando Correia
Origem: Recebido para crítica