domingo, 25 de fevereiro de 2018

Ensaio sobre o Dever (Rute Simões Ribeiro)

Ninguém sabe como foi possível que a mensagem se manifestasse da forma como apareceu, não só nos meios de comunicação habituais, mas também em rótulos, bulas e até apontamentos manuscritos. Mas uma coisa é certa: a mensagem existe e o que anuncia está prestes a acontecer. Dentro de muito pouco tempo, os cidadãos de todo o mundo terão de escolher apenas um sentido e será com esse - e apenas esse - que ficarão. Ora, isso mudará a forma como o mundo funciona e, por isso, as entidades governativas não tardam a encontrar a solução ideal - será o governo a decidir com que sentido cada pessoa fica. Para bem da nação, naturalmente. Só que nem todas as pessoas estão dispostas a resignar-se a isso e há uma grande diferença entre uma escolha imposta e uma escolha voluntária. Há quem se oponha. Quem aceite. Mas, quando tudo acontecer, nada será exactamente como se espera...
Bastam algumas páginas deste livro para vir ao pensamento uma associação evidente ao Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Não que seja uma imitação, não, mas são os pontos em comum o primeiro aspecto a sobressair e é, aliás, o contraste entre o comum e o diferente o que mais cativa nesta leitura. E que pontos comuns são estes? Bem, a ideia da perda de um sentido (ou, neste caso, vários) e da forma como isso se repercute na sociedade, bem como um olhar que, mais do que a história de uma personagem, toma como protagonista a sociedade como um todo. Além disso, também a autora tem um estilo de escrita muito próprio (ainda que, claro, de especificidades distintas) e isso realça a mesma unicidade que caracteriza tanto este livro como o Ensaio sobre a Cegueira.
Mas passando especificamente a este livro, que é o que aqui mais importa. Não é tanto um mistério (ainda que o mistério esteja presente) como uma história de consequências e, por isso, as explicações ficam muitas vezes para segundo plano. E, assim sendo, é claro que fica uma certa curiosidade insatisfeita, pois há motivos e origens que nunca chegam a ser explicados. Também é verdade, no entanto, que os motivos são um aspecto secundário da narrativa, que, centrada na forma como as pessoas - governo, juristas, cidadãos comuns - lidam com a perda dos sentidos, vive mais de acontecimentos (e das consequências destes acontecimentos) do que propriamente de explicações.
E é talvez também por isso que é estranhamente fácil entrar no ritmo do texto, já que a escrita tem um ritmo peculiar em que, apesar de não haver uma linha precisa (até porque a narrativa segue várias personagens) parece haver uma impressão de movimento constante. Há sempre algo a acontecer ou uma questão importante a ponderar. E as figuras centrais desta história realçam essas questões importantes, pois, da sombra de uma mudança imprevisível, surge um olhar bastante preciso sobre vários temas pertinentes da vida em sociedade.
A impressão que fica é, por isso, a de uma história que não dá todas as respostas, mas que, das que dá e das que deixa ao pensamento do leitor, consegue formar um retrato diferente, mas muito consistente, de uma sociedade possível. Intrigante, surpreendente e com uma fluidez muito cativante, uma boa surpresa. 

Título: Ensaio sobre o Dever
Autora: Rute Simões Ribeiro
Origem: Recebido para crítica

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Potter's Field - O Cemitério dos Esquecidos (Mark Waid e Paul Azaceta)

Na ilha de Hart, há um cemitério onde vão parar os que morreram sem nome nem forma de serem identificados. Mas há quem não se conforme com esse duro facto. Quem é ele realmente, ninguém parece saber, mas responde pelo nome de John Doe e, sob a capa do anonimato, recrutou um grupo de colaboradores para o ajudarem a identificar os mortos daquele vasto cemitério. Só a questão nunca é tão simples como parece e muitos dos mortos foram vítimas de algum tipo de violência. E há quem não queira que essa verdade seja descoberta - principalmente por alguém com métodos tão pouco ortodoxos como os de John Doe.
Com um ambiente sombrio que transparece tanto da imagem como dos próprios diálogos e uma história que é toda ela feita de mistérios, a primeira coisa a cativar neste livro é, inevitavelmente, a sensação quase imediata de se estar a entrar num romance policial. Tudo é mistério: os casos anónimos, a forma de actuar do protagonista, as relações e segredos que, nunca sendo propriamente desvendados, parecem ser a força motriz por trás de tudo o que acontece. E, sendo certo que, no fim, ficam inúmeras perguntas sem resposta, como se houvesse toda uma continuidade possível, também o é que esta ambiguidade de motivos se adequa na perfeição ao ambiente de mistério que define todo o livro. 
Para esta aura intrigante contribui também o delicado e fascinante equilíbrio entre a imagem e os diálogos. Os tons escuros ajustam-se ao teor sombrio da missão de John Doe - e à sua própria natureza enigmática. Além disso, acção e diálogo atingem também um muito bom equilíbrio, deixando que os actos falem por si, quando necessário, mas revelando (também conforme a necessidade) as vulnerabilidades humanas que tornam tudo mais intenso.
Também não falta acção neste percurso, ou não fossem todas as personagens algo perigosas. E isso, associado à omnipresente aura de mistério e à sensação de haver um lado humano e falível por trás de todos os enigmas, confere à leitura uma intensidade deliciosa que culmina na tal sensação de querer saber muito mais, mas também na impressão de um final adequado. 
Somadas as partes, fica a imagem de uma leitura intensa, intrigante e muito, muito misteriosa. Vale a pena, pois, conhecer John Doe e os seus associados. Vale muito a pena. 

Título: Potter's Field - O Cemitério dos Esquecidos
Autores: Mark Waid e Paul Azaceta
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

James Whitehouse é um bom pai, um marido dedicado e uma figura pública carismática e bem-sucedida. Um dia, é acusado de violação por uma colaboradora próxima. Sophie, a sua esposa, está convencida de que ele é inocente e procura desesperadamente proteger a sua família das mentiras que ameaçam arruinar-lhes a vida.
Kate Woodcroft é a advogada de acusação. Ela sabe que no tribunal vence quem apresentar os melhores argumentos, e não necessariamente quem é inocente. Ainda assim, está certa de que James é culpado e tudo fará para o condenar.
Será James vítima de um infeliz mal-entendido ou o autor de um sórdido crime? E estará a razão do lado de Sophie ou de Kate? Este escândalo — que irá forçar Sophie a reavaliar o seu casamento e Kate a enfrentar os seus demónios — deixará marcas na vida de todos eles.

Estudou Inglês na Universidade de Oxford. Estagiou na Press Association, agência noticiosa do Reino Unido e da Irlanda, e trabalhou durante 11 anos no jornal The Guardian como jornalista e correspondente nas áreas da saúde e da política. Deixou o diário britânico para se dedicar ao jornalismo como freelancer, altura em que começou a escrever ficção.
Anatomia de um Escândalo é o seu terceiro romance e já foi traduzido para 17 línguas. Além de escrever, Sarah adora ler, nadar e cozinhar. Actualmente, vive perto de Cambridge com o marido e os dois filhos. Está presentemente a escrever o seu próximo livro.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Voltar a Ti (José Rodrigues)

A vida de Constança divide-se entre dois mundos: a cidade do Porto, onde tem o seu trabalho numa grande empresa de informática e o namorado com quem vive há vários anos, e a aldeia de Cabeceiro onde tem os pais, o irmão e o lugar a que sempre adora regressar. E, embora o irmão esteja a passar por uma fase difícil, que necessariamente traz perturbações a todos, a vida de Constança define-se por uma relativa tranquilidade. Mas tudo muda quando o trabalho a leva a passar alguns meses no Algarve. Aí, no hotel onde passará algum tempo a trabalhar, fará novos amigos e conhecerá pessoas importantes para si. Mas descobrirá também que o coração não é tão firme quanto julga. E posta à prova nas suas escolhas sentimentais, Constança terá de escolher entre o que conhece e o futuro possível - ou de deixar para trás uma parte de si.
Provavelmente o grande ponto forte deste livro é a escrita que, num registo bastante intimista, pese embora a grande componente descritiva, consegue realçar rotinas e divergências sem nunca perder de vista a humanidade das personagens que apresenta. Nem sempre é fácil compreender as personagens e algumas das decisões de Constança não são propriamente as mais fáceis de compreender. Ainda assim, a forma como o autor dá voz à história consegue atenuar estes sentimentos de distância progressiva, mantendo sempre acesa a vontade de conhecer melhor as personagens e o mundo que habitam.
Também bastante interessante é a forma como as personagens conseguem surpreender. Ainda que seja Constança a protagonista, está longe de ser a figura mais cativante e, embora a sua história seja o centro de tudo o resto, são os outros quem mais marca neste caminho. Ora, isto tem dois aspectos a realçar: primeiro, o facto de haver gente marcante na história, mesmo que nem sempre se goste lá muito da protagonista. E segundo, o facto de ninguém - nem Constança nem os outros - ser perfeito. É, aliás, nas vulnerabilidades que se revela o mais marcante das personagens, o que acaba por deixar uma estranhamente agradável sensação de intimidade relativamente a elas.
É uma história de amor, ainda que não de um romance arrebatador. E talvez por isso é o aspecto romântico que acaba por impressionar menos. A forma como a relação de João e Constança evolui não é propriamente algo de imprevisível. Mas há mais para lá do romance - a vida familiar, o quotidiano da aldeia em contraste com a vida na cidade, os problemas de um desgosto capaz de apagar a vontade de viver e a forma como isto se repercute nos outros - e são estes aspectos aparentemente secundários que, associados ao percurso da protagonista, tornam toda a jornada memorável. E depois há ainda o complemento das fotografias que, na sua aparente simplicidade, acrescentam mais vida à narrativa.
A impressão que fica é, por isso, a de um livro que, apesar do ritmo relativamente pausado, consegue cativar pela forma como conta as coisas e, principalmente, pelo entrelaçar das diferentes facetas das suas personagens. Envolvente, bem escrito e com vários momentos memoráveis, uma boa leitura. 

Título: Voltar a Ti
Autor: José Rodrigues
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Louca (Chloé Esposito)

Alvina Knightly está num ponto delicado da sua vida. Sem grandes objectivos e, no entanto, a levar uma vida de excessos (alcoólicos, principalmente), não se pode dizer que se encaminhe para grandes coisas. Mas tudo muda quando a sua gémea lhe pede que a vá visitar a Itália, onde leva uma vida de luxo na companhia do marido. Alvie sempre teve inveja de Beth e, tendo acabado de perder o emprego, aquela é a sua oportunidade de viver por algum tempo no luxo que sempre julgou merecer. Mas basta chegar a Taormina, na Sicília, para perceber que algo se passa. Beth quer pedir-lhe um favor - e esse favor é o princípio de grandes mudanças, pois o que devia ser uma fuga acaba com Beth morta na piscina e Alvie a assumir a sua identidade. Só que, por dentro, elas não são assim tão parecidas - e Beth também não era o anjo que parecia ser. 
Com uma protagonista que é tudo menos previsível e um enredo repleto de reviravoltas, este é um livro que tem como maior qualidade a capacidade de surpreender. E em todos os aspectos, desde o contraste entre as irmãs à sucessão de acontecimentos inesperados, passando pelas memórias do passado e as revelações que dão a tudo uma perspectiva diferente. É fácil, por isso, entrar no ritmo da história - até porque se há coisa que não lhe falta é intensidade.
Também bastante surpreendente é o facto de não haver nenhuma personagem propriamente "boa". Alvie... bem, é Alvie. Estranha, louca, com uma bússola moral nitidamente avariada. Mas até as personagens que parecem, de início, ser pessoas melhores revelam lados desconhecidos, facetas inesperadamente maquiavélicas, ao ponto de o único verdadeiramente inocente ser... enfim, um bebé. Claro que isto tem um lado negativo: não é propriamente fácil sentir empatia para com as personagens, principalmente quando a protagonista mostra um tão intenso entusiasmo face à perspectiva de mentir, roubar, matar e outras actividades moralmente censuráveis. Mas há também algo de cativante em tudo isto, pois não é todos os dias que se encontra uma história em que (quase) todos são maus, mas em que, mesmo assim, é difícil resistir à vontade de saber o que acontece a seguir. 
E, claro, chega-se ao fim com várias perguntas sem resposta, ou não fosse este apenas o primeiro volume de uma trilogia. Mas a verdade é que são tantas as reviravoltas, tantos os momentos inesperados e tantas as interligações entre diferentes tempos e diferentes personagens que, mais do que curiosidade insatisfeita, fica a vontade de saber o que se segue... e descobrir talvez se o futuro de Alvina lhe trará o que lhe é devido.
Intenso, inesperado e com uma estranhamente cativante mistura de leveza e de escuridão, trata-se, portanto, de um livro que desperta sentimentos ambíguos, mas que, com o muito que tem de diferente e a ambiguidade moral das personagens que o povoam, consegue proporcionar uma experiência de leitura intrigante e surpreendente. Há mais para descobrir, com certeza. Mas, afinal, este é apenas o início... e um início muito promissor. 

Título: Louca
Autora: Chloé Esposito
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

The Stolen Child (Sanjida Kay)

Quando decidiram adoptar Evie, Zoe e Ollie nem sequer sabiam se ela ia sobreviver. Filha de uma toxicodependente, teve de lutar com todas as suas forças só para sobreviver na incubadora, mas conseguiu. Agora, sete anos depois, Zoe e Ollie têm o seu próprio filho, Ben, mas o seu amor por Evie não diminuiu, ainda que a vida familiar nem sempre seja perfeita. Mas a sua relativa paz é subitamente abalada quando o alegado pai biológico de Evie começa a mandar-lhe cartas. A filha foi-lhe roubada e ele quere-a de volta. E nem toda a atenção de Zoe aos seus presentes inesperados poderá impedi-lo de agir quando chegar a altura certa…
Uma das coisas mais impressionantes neste livro – que é bastante impressionante, no geral – é quão fácil é entrar na mente de Zoe, entender os seus medos e frustrações e, mesmo assim, ver os outros lados da história. A sua relação com Ollie não é perfeita, Zoe está longe de ser perfeita e as coisas mudaram com o tempo. Claro que ninguém é perfeito nesta história e é precisamente isso que a torna tão intensa. Porque, quando as grandes reviravoltas acontecem, qualquer das personagens pode ser o responsável. Todas as explicações são plausíveis.
A escrita é também bastante cativante, realçando o mistério em todas as coisas, mas também as características intrigantes e inesperadas que marcam as diferentes personagens. Zoe e Evie são as figuras mais importantes, sim, como seria de esperar. Mas as pessoas que as rodeiam? Bem, toda a gente tem segredos e as formas como esses segredos são revelados – sempre no momento em que mais importam – tornam a história muito mais intensa e surpreendente.
É principalmente um mistério, portanto – do pai biológico de uma criança que quer a filha de volta e do que acontece quando ele põe os seus planos em prática. Mas é também mais do que isso. É uma história sobre a vida familiar, e como nunca nada é tão perfeito como imaginamos. Sobre os instintos maternais e a necessidade de proteger aqueles que amamos. Sobre o que acontece na mente de uma pessoa quando a tensão e o medo são avassaladores – e como tudo, desde preconceitos a cenários assustadores e julgamentos precipitados, se torna natural quando tudo o que importa é encontrar a criança desaparecida. Há muitas questões importantes neste livro e a forma como a autora consegue abordá-las ao mesmo tempo que conta uma história cheia de mistério e de intriga e de reviravoltas inesperadas é também algo bastante impressionante.
Impressionante será então uma boa palavra para descrever este livro: uma história em que ninguém é exactamente o que parece e tudo pode mudar num piscar de olhos. Intenso, intrigante e muito viciante, uma leitura impressionante e um livro que decididamente recomendo.

Título: The Stolen Child
Autora: Sanjida Kay
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Bizâncio

Uma história de resistência e de determinação sobre a irresistível e duradoura natureza do amor e a fragilidade da vida.
Frank Gold, um refugiado de guerra vindo da Hungria para a Austrália, é apanhado pelo surto de poliomielite que atingiu aquele país em 1954.
Como tantas outras crianças é acolhido na casa de recuperação «Golden Age», onde reaprendem a andar. É aí que encontra Sullivan, que lhe revela a poesia, e mais tarde Elsa.
Resiste ao abandono e ao isolamento daquele lugar através da poesia e do laço de paixão que o liga a Elsa.
Nesta casa parada no tempo, as crianças estão sujeitas a regras próprias que fazem de «Golden Age» um outro país, um terceiro país, onde todos descobrem que estão sós, numa luta de recuperação muito própria.

Porque é que os lobos uivam à lua?
É verdade que as hienas riem? 
Porque é que os hipopótamos gostam tanto de lama? 

Na mesma linha editorial do «O Grande livro dos Insetos», este álbum, a cores e de grande formato, incentiva as crianças à leitura, na procura de respostas a estas e muitas outras perguntas incríveis.
Aqui, iremos encontrar toda a espécie de animais selvagens do mundo, barulhentos, peludos, ferozes e maravilhosos, como se alimentam, caçam, sobrevivem e se reproduzem, contribuindo para um melhor conhecimento e uma melhor compreensão do mundo animal.